Saciedade além das canetas: como o cotidiano influencia o apetite
2h ago
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Extra OnlineSaciedade além das canetas: como o cotidiano influencia o apetiteglobo.comNos últimos meses, as chamadas "canetas emagrecedoras" colocaram em evidência um hormônio até então mais restrito ao meio médico e científico: o GLP-1. Impulsionadas pela popularização de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, essas terapias passaram a ocupar espaço nas redes sociais e em conversas públicas sobre emagrecimento, rotina alimentar e controle de apetite, especialmente entre celebridades e influenciadores que relatam mudanças no corpo e na relação com a comida. Boca de Mounjaro: veja cuidados com os efeitos das canetas emagrecedoras na saúde oral Confira: Canetas emagrecedoras e os efeitos no corpo que vão além da perda de peso O mecanismo por trás desses medicamentos está relacionado à imitação de substâncias produzidas naturalmente pelo intestino, que atuam na regulação da fome e da saciedade. Ao reforçar esses sinais, eles aumentam a sensação de plenitude e reduzem a ingestão alimentar. Ainda assim, especialistas destacam que o corpo humano já possui um sistema complexo de controle do apetite, que não depende exclusivamente de intervenções medicamentosas. "Embora os medicamentos possam potencializar esses mecanismos, hábitos cotidianos também influenciam a produção dessas substâncias e podem contribuir para um melhor controle do apetite. Principalmente para pacientes que não têm indicação do uso de canetas, colocar em prática alguns bons hábitos pode ajudar no emagrecimento, por meio do aumento da saciedade", explica a endocrinologista Deborah Beranger. Segundo a médica, compreender esse funcionamento ajuda a afastar a ideia de que fome e controle alimentar são apenas questões de disciplina. Trata-se de um conjunto de sinais biológicos que envolvem diferentes órgãos e mensageiros químicos. "Fome e saciedade são fenômenos biológicos extremamente complexos. O cérebro recebe sinais do intestino, do tecido adiposo, do estômago e de diversos órgãos para decidir quando devemos comer e quando devemos parar", detalha. Entre os principais hormônios envolvidos nesse processo está o GLP-1, liberado após as refeições e associado à redução do apetite e ao aumento da sensação de saciedade. "Seu hormônio é estimulado principalmente pela chegada de nutrientes ao intestino, especialmente proteínas e fibras fermentáveis", afirma. Outro mediador importante é o peptídeo YY (PYY), que também atua na comunicação entre intestino e cérebro. "Pesquisas mostram que refeições ricas em proteínas promovem uma liberação mais intensa desse hormônio", diz a endocrinologista. Já a colecistocinina (CCK) funciona como um dos primeiros sinais de saciedade liberados durante a alimentação. "Produzida no intestino delgado, responde especialmente à presença de proteínas e gorduras. Ela envia mensagens ao nervo vago e ao cérebro informando que a refeição já começou e que o organismo está recebendo nutrientes", esclarece. Produzida pelo tecido adiposo, a leptina atua como um marcador das reservas energéticas do corpo, embora seu funcionamento possa ser alterado em algumas condições. "Entretanto, muitas pessoas com excesso de peso desenvolvem resistência à leptina, situação em que o cérebro passa a responder menos aos seus sinais", observa. A grelina, produzida principalmente pelo estômago, tem ação oposta e está ligada ao aumento da fome. "Produzida principalmente pelo estômago, seus níveis aumentam antes das refeições e diminuem após a alimentação. Privação de sono, restrições alimentares muito severas e longos períodos sem comer podem aumentar sua liberação", destaca a Dra. Deborah. Hábitos que influenciam a saciedade Embora não exista uma forma direta de "controlar" hormônios, especialistas apontam que determinados hábitos podem favorecer o equilíbrio desses mecanismos naturais. Um dos principais é a priorização de proteínas ao longo do dia. "Entre todos os macronutrientes, a proteína é considerada o mais potente estímulo dietético para a saciedade. Ela aumenta a liberação de GLP-1, PYY e CCK, além de reduzir os níveis de grelina. Carnes magras, ovos, leite e derivados, peixes, leguminosas e suplementos proteicos podem contribuir para esse efeito", orienta. O consumo de fibras também desempenha papel importante nesse processo. "As fibras promovem distensão gástrica, retardam a digestão e servem de alimento para bactérias intestinais benéficas. Durante a fermentação dessas fibras, são produzidos ácidos graxos de cadeia curta que parecem estimular a produção de GLP-1 e PYY. Frutas, verduras, legumes, aveia, feijões e sementes são algumas das principais fontes", comenta. Outro fator frequentemente negligenciado é o ritmo da alimentação. "O cérebro não recebe instantaneamente a informação de que a refeição começou. Estima-se que diversos sinais de saciedade demorem entre 15 e 20 minutos para atingir plenamente os centros cerebrais responsáveis pelo controle da ingestão alimentar. Quando a refeição é consumida muito rapidamente, é comum que a pessoa ultrapasse suas necessidades antes que esses mecanismos sejam ativados", ressalta. O sono também interfere diretamente no equilíbrio hormonal: "A endocrinologista enfatiza que poucas horas de sono estão associadas ao aumento da grelina e à redução da leptina. Como consequência, há maior sensação de fome, especialmente por alimentos ricos em açúcar e gordura. Estudos mostram que a privação crônica de sono altera significativamente os sistemas cerebrais ligados à recompensa alimentar." Restrições alimentares muito rígidas também podem ter efeito contrário ao esperado. "Uma delas é o aumento dos sinais de fome, incluindo maior produção de grelina, o que ajuda a explicar por que dietas radicais costumam ser difíceis de sustentar", pontua. A prática regular de atividade física aparece como outro fator associado ao equilíbrio do apetite. "Pesquisas sugerem que a atividade física regular pode melhorar a sensibilidade à leptina e favorecer a regulação dos mecanismos de fome e saciedade", fala. Outro fator que influencia a resposta do organismo é a composição das refeições: "Essa distensão física do estômago ativa receptores mecânicos que enviam sinais precoces de saciedade ao cérebro." Fome além do físico Por fim, a especialista enfatiza que a vontade de comer nem sempre está ligada à necessidade energética do corpo. Emoções, rotina e ambiente também interferem diretamente nesse comportamento. "Estresse, ansiedade, privação de sono, hábitos sociais e estímulos visuais podem ativar circuitos cerebrais de recompensa independentes dos hormônios clássicos da fome. Por isso, controlar o apetite envolve mais do que contar calorias. Envolve compreender a saciedade, hormônios e comportamento. "Quando falamos em emagrecimento saudável, não estamos apenas tentando reduzir a ingestão de alimentos. Estamos tentando criar condições para que o próprio organismo consiga reconhecer adequadamente os sinais de fome e saciedade que ele produz todos os dias", finaliza a Dra. Deborah.
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