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O que acontece quando a arte substitui o manicômio? O legado de Nise completa 80 anos

12h ago

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Extra OnlineO que acontece quando a arte substitui o manicômio? O legado de Nise completa 80 anosglobo.com
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Há 80 anos, em um momento em que a psiquiatria era marcada por práticas como eletrochoques, lobotomia, insulinoterapia e isolamento social, a médica Nise da Silveira propôs um caminho diferente. Em vez do confinamento e da violência, apostou na liberdade, na criatividade, no afeto e na expressão humana. A experiência, iniciada em 1946 dentro do então Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, transformou a história da saúde mental no Brasil, deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente — hoje detentor do maior acervo do mundo do gênero, com mais de 400 mil obras, sendo 128 mil tombadas pelo Iphan — e ajudou a pavimentar o caminho para a Reforma Psiquiátrica brasileira. O legado dessa transformação ganha destaque em 2026 com duas comemorações realizadas no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira. Enquanto o Museu de Imagens do Inconsciente celebra os 80 anos dos ateliês terapêuticos com exposições, fórum científico e atividades abertas ao público ao longo do ano, o Espaço Travessia completa dez anos de funcionamento com uma programação gratuita de oficinas, exposições e ações culturais durante o mês de julho. As atividades acontecem na Rua Ramiro Magalhães 521, no Engenho de Dentro. O Espaço Travessia funciona de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 17h, e as inscrições para as oficinas são divulgadas em suas redes sociais. O artista Edmilson Santini apresenta um espetáculo de teatro em cordel no Espaço Travessia Divulgação/IMAS Nise da Silveira/Pâmela Perez A criação dos ateliês terapêuticos representou uma ruptura com o modelo psiquiátrico vigente à época. Embora a pintura e a modelagem fossem apenas duas entre diversas atividades oferecidas aos pacientes — como encadernação, sapataria, cestaria e jardinagem —, essas formas de expressão revelaram grande interesse científico para a compreensão do processo psicótico e passaram a ocupar lugar central no tratamento. Eurípedes Junior, coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, resume a importância desse trabalho: — Foi o início de um trabalho que modificou profundamente os métodos de tratamento para saúde mental na psiquiatria e abriu caminho para a Luta Antimanicomial e a Reforma Psiquiátrica. Segundo Junior, o método desenvolvido por Nise permanece atual justamente por preservar os princípios que orientaram sua criação: — Os princípios básicos da liberdade, espontaneidade e criatividade são mantidos, e o relacionamento no convívio vai se atualizando conforme as mudanças sociais e os avanços na inclusão social dos pacientes com transtornos mentais. Os ateliês de pintura e modelagem continuam funcionando normalmente dentro do museu, ao lado de outras atividades expressivas, mantendo uma dinâmica baseada no convívio, no afeto e na liberdade de expressão. Para Junior, a principal contribuição dos ateliês para a história da saúde mental foi demonstrar que era possível construir um tratamento não invasivo, baseado na criatividade, na liberdade e no afeto, em contraposição a uma visão exclusivamente organicista e medicamentosa da psiquiatria. Hoje, quem visita o Museu de Imagens do Inconsciente encontra três exposições abertas ao público: “Geometria e cor”, de Manoel Godin, “Ocupação: Nise da Silveira” e “Riquezas do mundo interno”. As mostras apresentam diferentes aspectos da produção artística desenvolvida no instituto e revelam como a experiência dos transtornos mentais pode ser compreendida para além dos estigmas e preconceitos. As comemorações pelos 80 anos incluem ainda o fórum científico “A emoção de lidar — 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira”, realizado com encontros quinzenais abertos ao público até o fim do ano. A programação reúne também exposições, lançamentos de documentários e outras atividades voltadas à experimentação do método terapêutico desenvolvido por Nise. Novas ações serão divulgadas ao longo do ano. Se o museu preserva a origem desse legado, o Espaço Travessia mostra como ele continua produzindo novos significados. Criado em 2016 dentro do Instituto Nise da Silveira, o projeto transformou antigas enfermarias do hospital psiquiátrico em galerias, ateliês e espaços de convivência. O que antes servia ao confinamento passou a receber exposições, oficinas, apresentações de teatro, dança, música, cinema, fotografia, poesia, cursos, residências artísticas e encontros abertos à população. O nome do projeto é uma homenagem ao romance “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa, que completa 70 anos em 2026. A última palavra da obra, “travessia”, sintetiza a ideia de transformação permanente que inspira o espaço: converter um lugar historicamente marcado pelo isolamento em um território de encontros, criação artística e cuidado em liberdade. Segundo Marcelo Valle, jornalista, fotógrafo e coordenador do Espaço Travessia, a proposta sempre foi ir além de uma galeria de arte. — A ideia nunca foi criar uma galeria de arte convencional ou algo parecido. O Travessia é um espaço de encontros. Aqui convivem artistas, usuários da Rede de Atenção Psicossocial, moradores do bairro, pesquisadores, estudantes e pessoas que simplesmente querem experimentar a cidade e as diferenças de outra forma — enumera. Ao longo de uma década, o Travessia recebeu centenas de artistas, promoveu exposições, oficinas gratuitas, residências artísticas, cineclubes, apresentações musicais, saraus, lançamentos de livros, cursos e ações de formação. Também estabeleceu parcerias com universidades, escolas, Centros de Atenção Psicossocial (Caps), equipamentos públicos, coletivos culturais e movimentos sociais, consolidando-se como um dos principais polos de produção artística da Zona Norte. Segundo o coordenador do espaço, o impacto vai além da produção cultural. — Ao longo desses dez anos, pessoas descobriram sua produção artística, retomaram projetos de vida, ampliaram suas redes de convivência e passaram a expor seus trabalhos, participar de eventos culturais e ocupar outros espaços da cidade. O fortalecimento da autonomia, da autoestima, dos vínculos sociais e do reconhecimento como sujeitos de direitos também faz parte dessa trajetória. Valle ressalta que, ao completar dez anos, o Travessia busca fortalecer sua atuação como política pública permanente. Entre os desafios estão ampliar o trabalho no território e fortalecer parcerias com a Rede de Atenção Psicossocial, universidades, escolas, coletivos culturais e movimentos sociais, além de seguir enfrentando os estigmas que ainda cercam a loucura e os antigos espaços de internação. Durante o mês de julho, o Espaço Travessia promove uma programação especial gratuita. Entre os destaques estão a oficina Fototransferência — Tecituras, Texturas, Tingimentos e Alinhavos, ministrada por Marcelo Vieira; a oficina Palavragesto e Imagens, conduzida por Lula Wanderley, dedicada à experimentação das linguagens visual, corporal, gestual e sonora; e uma nova edição da oficina Relíquias da Copa 2026, promovida pela Relikia RJ, marca criada no próprio espaço por Yukie Hayashi e Marcelo Fernandes, que utiliza a serigrafia em camisas da seleção brasileira para discutir arte, memória, moda e posicionamento político. O Travessia mantém ainda sua programação permanente de oficinas, exposições, residências artísticas e atividades culturais de segunda a sexta-feira, das 9h30 às 17h, e prepara uma agenda especial para o período das férias escolares.

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