A ciência descobre o açaí, o superalimento amazônico
8h agopt
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Para muita gente, a palavra açaí faz pensar em uma tigela gelada coberta por leite condensado, granola, paçoca e outras guloseimas. Mas basta voltar à origem amazônica do fruto para encontrar uma realidade bem diferente: a polpa pura reúne fibras, gorduras saudáveis, minerais e compostos bioativos em uma combinação rara entre os alimentos. Esse foi o principal recado do painel "Saúde, nutrição e desempenho", realizado durante a Mesa Executiva do Açaí, iniciativa da Secretaria do Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (SEMAS), dentro da 2ª Semana do Clima da Amazônia, que aconteceu semana passada no Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia (PBIA), em Belém. — O açaí não é apenas um alimento energético. É um superalimento com densidade de nutrientes muito superior à de diversas frutas amplamente consumidas — afirmou a nutricionista funcional e chef Carina Muller. Ela lembrou que, em 100 gramas, o fruto oferece cerca de cinco vezes mais fibras que o mamão e concentra quantidades superiores de minerais como cálcio, fósforo, magnésio e manganês em comparação ao mirtilo (blueberry). Também fornece vitamina E, ferro e ácido oleico, a mesma gordura monoinsaturada encontrada no azeite de oliva. Outro dado ajuda a derrubar um dos principais mitos sobre o fruto. Enquanto muita gente associa o açaí ao excesso de calorias, a polpa pura fornece aproximadamente 68 calorias por 100 gramas — valor semelhante ao de um iogurte natural. — O problema não é o açaí. São os xaropes, açúcares e coberturas que costumam acompanhá-lo — destacou Carina. A recomendação é optar pelo açaí mais concentrado, sem adição de xaropes, e consumi-lo associado a proteínas, como fazem tradicionalmente as populações amazônicas. Além do perfil nutricional, cresce o volume de pesquisas sobre os compostos fenólicos do fruto, especialmente as antocianinas, pigmentos responsáveis pela coloração roxa intensa. Elas conferem propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, anticancerígenas, imunomoduladoras, antimicrobianas, cardioprotetoras e hipoglicêmicas. A nutricionista Alessandra Luglio lembrou que o fruto reúne uma combinação considerada estratégica para a prevenção de doenças: fibras, gorduras saudáveis e compostos bioativos, especialmente antocianinas e outros polifenóis (substâncias com alto poder antioxidante). — Hoje temos revisões sistemáticas mostrando que o consumo de antocianinas está associado à melhora do perfil lipídico (redução do colesterol LDL, ruim, e dos triglicerídeos, associada ao aumento do HDL, bom), da função endotelial (restauração dos vasos sanguíneos) e à redução de marcadores inflamatórios — disse. Estudos também apontam redução do LDL-colesterol e da pressão arterial entre pessoas com maior ingestão de antocianinas. Na prática esportiva, os resultados também chamam atenção. Segundo Alessandra, as pesquisas indicam que o consumo de açaí pode reduzir o estresse oxidativo e a inflamação provocados pelo exercício, favorecer a produção de óxido nítrico, melhorando a circulação e a oxigenação muscular, e acelerar a recuperação quando associado à ingestão de proteínas: — Estudos mostram que combinar açaí com proteína pode aumentar a construção de massa muscular em até 33% no início dos treinamentos. Os antioxidantes presentes no fruto também vêm sendo estudados pelo potencial de proteger a pele contra o fotoenvelhecimento induzido pela radiação solar. Embora muitos desses achados ainda estejam sendo aprofundados, há um consenso crescente sobre o potencial do fruto na promoção da saúde metabólica e cardiovascular. Para o pesquisador Hervé Rogez, professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA) e uma das maiores referências mundiais em compostos bioativos da Amazônia, a valorização do açaí representa também o reconhecimento de um conhecimento ancestral. — Durante séculos, os povos amazônicos consumiram o açaí como um alimento completo. A ciência vem mostrando que essa combinação de gorduras de alta qualidade, antioxidantes e minerais faz sentido também do ponto de vista da prevenção de doenças — afirmou. Os avanços continuam. Nos últimos anos, pesquisadores sequenciaram o genoma do açaizeiro, esclareceram a formação das antocianinas e identificaram microrganismos com potencial probiótico naturalmente presentes no fruto, abrindo novas perspectivas para pesquisas sobre microbiota intestinal. Mas Rogez fez um alerta: transformar o açaí em símbolo da bioeconomia exige responsabilidade. Isso passa pelo processamento adequado para eliminar o risco de transmissão da doença de Chagas e pela expansão de sistemas agroflorestais capazes de conservar a biodiversidade amazônica. A grande lição deixada pelo encontro: a ciência está revelando ao mundo aquilo que os povos da floresta aprenderam pela experiência. O açaí nunca foi apenas uma moda. Sempre foi um alimento completo e, ao preservar sua origem, estamos ajudando a preservar o futuro da Amazônia.
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