'Tem libido, tem libidinagem, tem deboche': Simone foca no feminino em novo show, com novos parceiros
3h agopt
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Quem desembarca do elevador, logo vê nas paredes cartazes do show, com um desenho do rosto da cantora. Velas iluminam o caminho na escada até o vasto apartamento no bairro carioca de São Conrado. Porta aberta, é entrar e seguir até a sala, repleta de instrumentos e amplificadores. Paulo Vieira pediu horário nobre para 'Pablo e Luisão' na TV aberta: 'Fizemos a série pensando nesse público' Saiba quem foi Tuca: Artista aclamada, que começou ao lado de nomes como Chico Buarque e teria morrido por regime para emagrecer com guru, é tema de livro É lá que Simone, de 76 anos, tem ensaiado por esses dias “Que mulher é essa?!”, o seu novo espetáculo, que estreia dia 1º de agosto em São Paulo (no Tokio Marine Hall) e chega dia 7 ao Rio (no Vivo Rio), antes de seguir para Fortaleza, Aracaju, Belo Horizonte, Curitiba e Recife. Pela primeira vez, uma das mais populares vozes do Brasil trabalha com o estilista Ronaldo Fraga, de 58 anos (estreante na direção artística, depois de colaborações com figurino e cenografia de shows), e com Ana Frango Elétrico, de 28, revelação da música brasileira, que já atuou na produção de discos (os seus próprios, o do grupo Bala Desejo, o da cantora Dora Morelenbaum) e deu “palpites em shows” — mas nunca havia sido, como aqui, diretora musical de um espetáculo. Depois de uma experiência, preparando um show com Ivan Lins, Simone também resolveu investir na novidade de ensaiar em casa — só até 22h, para não incomodar os vizinhos. Mas a coisa sempre acaba virando festa. — Aqui é onde eu gosto de ficar, é o lugar que proporciona paz para todo mundo. É uma família! Se pudesse, deixava todo mundo dormindo aqui, cuidava de todo mundo. Porque eu tenho esse lado meio mãe, que fica preocupada quando as crianças vão embora — confidencia a cantora, no que então é abraçada ao mesmo tempo por Ana e Ronaldo (segundo ele, num “sanduíche de Cigarra”, menção carinhosa ao apelido de Simone). — Podem abraçar que eu gosto! O estilista Ronaldo Fraga, a cantora Simone e a cantora e produtora Ana Frango Elétrico, nos ensaios para o show ‘Que mulher é essa?!’ Marina Calderon Os primeiros dias da produção de “Que mulher é essa?!” são leves. Ronaldo conta que era adolescente quando viu Simone pela primeira vez, em Belo Horizonte, na campanha pelas Diretas (“ela era uma pessoa com uma bandeira política, que tinha gravado ‘Caminhando’, era uma mulher abusada!”). Ele só a reviu recentemente, convidado para seu show de 50 anos de carreira. — Fiquei de cara e falei: “Cara, essa mulher é um hit atrás do outro! E depois desse show, o que ela vai fazer?” Na hora, fiquei pensando um pouco mais e aí me veio a pergunta: “Que mulher é essa?” — revela. — Se você fala em sexismo, em misoginia, em homofobia, e, mais recentemente de etarismo, você vê que ela levantou bandeiras contra tudo isso quando não existia nome para esses preconceitos. Simone simplesmente viveu e foi fazendo as coisas. Depois de um outro encontro, por acaso, no Rio, a cantora resolveu que eles tinham que trabalhar juntos. E disse ao estilista: “Eu quero falar de mulher!” — Eu queria falar de tudo que for possível falar da mulher: do que a gente passa, dos sofrimentos, das rupturas, dos sangramentos, das dores, dos amores... quero falar de tudo o que puder sair de dentro de mim, das mulheres que habitam esse meu corpo e a minha cabeça — conta Simone. Nisso, Ronaldo lembra que “a gente tá falando de um país em que, a cada quatro minutos, ocorre um feminicídio”. Mas avisa: — O show não é só isso, não é só essa dor. Tem libido, tem libidinagem, tem deboche. E, com essas duas aqui, tudo isso ganhou outra roupagem. ‘Energia feminina’ O que existe ali, diz Ronaldo, é “uma energia feminina, no melhor sentido da palavra”. Até porque, depois que os dois começaram a rascunhar o show, a cantora resolveu chamar Ana Frango Elétrico para a direção musical. Simone e Ana Frango Elétrico se conheceram em 2024, no Circo Voador, em “Um som pro Sul”, evento em prol de vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul, no qual Simone se apresentou ao lado do velho amigo Marcos Valle. — De repente chegou no camarim esse furacão. Eu fiquei assim, olhando para ela, a gente se falou, e ela começou a falar com o Marcos: “Ah, porque aqui é dó menor...” Que pessoa é essa? — ri Simone, que depois de um outro encontro com Ana, desta vez em São Paulo, não titubeou e decidiu convidá-la para a direção musical do show, um trabalho que começaria no dia seguinte. — Ela veio aqui em casa, porque eu gosto do encontro face a face. E ela veio cheia de ideias. Dei a ela toda a liberdade do mundo. “Que sorte a minha!”, vibra Ana Frango Elétrico, uma entusiasta do caráter pergunta-afirmação, exclamativa, de “Que mulher é essa?!”. — A primeira coisa em que pensei foi nessa vitalidade da Simone. E nessa musicalidade dela, que tem tudo a ver com o que gosto. Eu sou a Ana Frango Elétrico, mas gosto pra caramba da tradição, da história fonográfica, das discografias longas, das estéticas das décadas — entrega a diretora musical. Simone (ao centro), com Ana Frango Elétrico, Ronaldo Fraga e os músicos do show ‘Que mulher é essa?!’ Marina Calderon Juntamente com Simone, Ana Frango Elétrico chegou à conclusão de que elas deveriam trabalhar com uma banda enxuta, um quarteto, formado por músicos jovens, boa parte dos quais já tinha tocado com Simone no show dos 50 anos: Chico Lira (neto do pianista Arthur Moreira Lima, no piano e teclados), Giordano Gasperin (baixo), Filipe Coimbra (guitarra) e Vitor Cabral (bateria). — Gosto de shows com bandas reduzidas, acho que a gente consegue chegar a muitas dinâmicas, e soar com muita pressão. Soar grande e, ao mesmo tempo, minimalista, e tudo ser muito inteligível, conseguir ouvir cada instrumento de uma forma mais concreta, ocupando espaço — explica Ana. — Acho que isso tem tudo a ver com vários discos do começo da carreira dela. Da minha parte, tem uma irreverência na reverência a esses discos, de que eu gosto muito, e que têm muito a ver com o meu trabalho, com a minha pesquisa. Então, estou puxando um pouco também para isso, para o que a Simone me inspira. O repertório de “Que mulher é essa?!” é, segundo Simone, “uma viagem pelo mundo feminino”, com homenagens a Gal Costa e Cássia Eller (em “Malandragem”), e canções compostas por Rita Lee (“Cor de rosa choque”), Marina Lima (“Grávida”) e Sueli Costa (as eternas “Jura secreta” e “Face a face”) — algumas canções, inclusive, que ela nunca tinha gravado ou mesmo cantado. — Quando a gente pergunta “que mulher é essa?”, antes de qualquer uma, é ela, Simone. Todas essas mulheres passaram pela sua carreira, ela cantou todas elas, sem exceção — atesta Ronaldo Fraga. — E quando ela presta essas homenagens, ela está falando dela mesma, da relação que teve com essas meninas. A cantora Simone, em ensaio do show ‘Que mulher é essa?!’ Marina Calderon O ensaio dá algumas pistas do que vem em “Que mulher é essa?!”. A Gal Costa psicodélica, do LP de 1969, é a referência — de arranjos e interpretação — para a homenagem com “Se você pensa” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos). Fã da sonoridade do primeiro LP de Simone, lançado em 1973 (“quando ela nem pensava em vir ao mundo”, provoca a cantora), Ana Frango Elétrico pescou desse disco o samba dark “Morena” (de Daltony Nóbrega). “Se o dia não fosse de chuva/ morena ia sair/ e passear suas curvas/ por aí, por aí”, canta a Cigarra, sobre um instrumental propositalmente bem próximo da gravação original. Um dos compositores favoritos de Simone, Gonzaguinha (1945-1991) tem ao menos duas composições especialmente recuperadas para o novo show: “Eu nem ligo”, com o mesmo arranjo jazzy do disco “Gotas d’água”, de 1975 (“eles querem/ que eu me afobe e confunda/ mas eu ponho nas sombras/ do seu circo mortal”, canta Simone, trocando o “sombras” por uma palavra que rima melhor); e “Petúnia Resedá”, revelando uma Simone reconectada com a maneira esfuziante com que gravou a canção em 1978, no LP “Cigarra”. São delícias de um show que ainda terá “Quando eu estiver cantando” (de Cazuza e João Rebouças, cantada por ela mês passado na cerimônia de entrega do Prêmio BTG Pactual da Música Brasileira) e canções de Chico Buarque e Milton Nascimento, entre outros luminares da MPB. Filhos de Caetano, de Gil, de Rita Lee e dos Novos Baianos lembram infância nos tempos do desbunde: 'Os pais caretas também erravam, mas eram os primeiros a querer esconder' Para Ana Frango Elétrico, “Que mulher é essa?!” indica o “começo de um recomeço”, com um repertório que “talvez aponte para um futuro da Simone”. — Simone gravou em tudo quanto é lugar, conhece todos os músicos, é impressionante, é uma aula. Só posso agradecer por esse privilégio de conhecê-la de perto e aprender com ela — diz a diretora artística, que vai para a Europa no mês que vem, em turnê, e não vai conseguir acompanhar a estreia do espetáculo. — Mas nós duas temos muitos planos pela frente, se preparem!
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