Os pênaltis e a autoestima masculina
5h agopt
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Pousar um Boeing numa situação de emergência? É pra já! Se eu estivesse num voo, desse um piripaque nos pilotos e a comissária de bordo perguntasse aos passageiros quem daria conta da aterrissagem, mandaria um “xácomigo!” de bate-pronto. Já descrevi aqui a minha decepção ao descobrir, numa pesquisa nos Estados Unidos, que isso é apenas uma fantasia da minha vaidade. Provavelmente eu iria espatifar a aeronave no chão. Não é coisa minha: 60% dos homens consideram que dariam conta do recado. Ou seja, é um capricho típico da delirante autoestima masculina. A realidade acabou com mais uma das minhas ilusões. Sem problema: de onde veio essa, tem mais. O jogador vai bater um pênalti decisivo na Copa do Mundo. Aquela tensão no ar, a combinação entre Copa e pênaltis é sinistra. O juiz autoriza, o jogador toma distância, corre para a bola e chuta. Meia altura, do lado direito. O goleiro adivinha o canto e defende. “Seu burro!” grito em frente à televisão. “É óbvio que pênalti não se bate assim, animal!”, continuo. “Chuta no alto, no ângulo! Ali o goleiro não vai pegar nunca!” Continuo xingando e reclamando por horas. Em outro jogo, outro pênalti: desta vez o cobrador toma uma grande distância. Ele corre e chuta alto, no canto. Indefensável, segundo minha teoria. Porém, o goleiro adversário só observa a bola indo lá na arquibancada. “Seu idiota!” grito outra vez. “Como você erra um chute desses!”, acrescento. “Devia ter acertado no meio, para pegar o goleiro no contrapé!” Mostro como seria, chutando uma bola imaginária para uma plateia inexistente. “Esses caras não sabem nada”, concluo. “Se fosse eu lá, o país ainda estaria na Copa” Nunca joguei num campo de futebol com grama. Não faço ideia do tamanho de um gol oficial. Bola padrão Fifa? Só na vitrine. Pressão da torcida? Nem tchuns. Campeonato? Torneio? Pelada entre casados x solteiros? Jamais. Disputa de pênaltis? Só no totó, ali na Escola de Comunicação da UFRJ, décadas atrás. Provavelmente perdi. De onde surgem tantas certezas em frente à televisão? As leitoras certamente têm uma hipótese. Os leitores preferem não falar do assunto. Sim, trata-se da inabalável vaidade dos homens, nossa velha conhecida. É ela que faz qualquer homem, tipo eu, achar que, entre outras coisas, acertaria um pênalti numa Copa do Mundo. Não importa se na frente dele estivessem Neuer, Vozinha ou mesmo Nyland, da Noruega. Não só acertaria, como o faria com estilo único, espetacular, uma mistura fina de malandragem e eficiência. Algo para entrar na história mundial. Quiçá universal. O mais curioso é que independe da idade ou talento. Do garoto desajeitado de 9 anos ao vovô estropiado de 90, todos acham que resolveriam a parada. De onde vem isso? Sei lá, talvez da falta de autocrítica, talvez do excesso de Nescau. Quem sabe daquele hábito que tínhamos quando garotos, de conduzir a bola com os pés ao mesmo tempo que fazíamos “uá, uá, uá” com a boca, imitando a suposta vibração de uma torcida que só existia na nossa cabeça? Aquele pênalti perdido pelo Bruno Guimarães na eliminação do Brasil? Se fosse eu, a história seria outra. Não é com força, é com jeito, teorizo enquanto imagino o júbilo dos torcedores. Ainda mais quando souberem que só cheguei a tempo porque consegui pousar um 747 desgovernado. Uá, uá, uá. Já escuto daqui.
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