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'O fogo levou tudo': sobreviventes relembram tragédia que marcou o Morro Azul

14h ago

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Extra Online'O fogo levou tudo': sobreviventes relembram tragédia que marcou o Morro Azulglobo.com
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No tempo em que não havia água encanada no Morro Azul, ela chegava às casas lá no alto antes do amanhecer. Ainda no escuro da madrugada, mulheres e crianças desciam as trilhas íngremes da comunidade, no Flamengo, com latas de 18 litros equilibradas na cabeça, em direção ao Palácio Guanabara. Os recipientes precisavam ser enchidos às 5h, já que às 7h30 chegavam os funcionários do Palácio, e ninguém podia estar lá. A subida de volta era lenta, marcada pelo peso da água e pela repetição de uma rotina que moldou gerações inteiras na Zona Sul muito antes de a paisagem ao redor ser tomada pela lógica urbana que viria depois, com prédios e avenidas. Memória urbana viva: Aplicativo une tecnologia, turismo e patrimônio para traçar um mapa com histórias de endereços cariocas Novo trabalho: Lenine lança 'Eita' após 11 anos sem disco e transforma intimidade, memória e família em espetáculo multimídia As casas eram de madeira. A luz vinha de lampiões e lamparinas. O ferro de passar roupa era aquecido com carvão. Não havia rede elétrica regular, nem abastecimento de água dentro das casas. Ainda assim, o Morro Azul já era um território consolidado, com vínculos sociais profundos, onde vizinhos compartilhavam não apenas a geografia, mas também as estratégias de sobrevivência. Morro Azul. A comunidade fica entre Flamengo, Botafogo e Laranjeiras Divulgação/Cecília Gonçalves Nesse cenário nasce e cresce Sônia Rodrigues Santana. Hoje com 84 anos, ela nunca deixou o Morro Azul. É dali que vê o tempo passar sobre a cidade e sobre a própria vida. No próximo dia 16, ela completa mais um aniversário carregando na memória um dos episódios mais marcantes da história da comunidade: o incêndio de 1957. — Eu era criança, mas aquilo ficou na cabeça para sempre. O fogo foi muito rápido. Quando a gente viu, já estava tudo tomado — lembra dona Sônia. O Morro Azul começou a se formar de maneira mais contínua nas primeiras décadas do século XX, acompanhando o crescimento da cidade e a chegada de trabalhadores às áreas próximas ao Centro e à Zona Sul. À medida que bairros como Flamengo e Botafogo se expandiam com infraestrutura e valorização imobiliária, o morro recebia famílias que construíam suas casas em meio à precariedade, mas também em meio à criação de uma comunidade viva. Nos anos 1950, essa desigualdade urbana era ainda mais evidente. Enquanto o asfalto se modernizava, o alto do morro seguia sem serviços básicos estruturados. A vulnerabilidade das construções de madeira, somada à densidade das moradias, criava um cenário de risco permanente. Foi nesse contexto que o incêndio de 1957 atingiu o Morro Azul. As chamas se espalharam rapidamente, impulsionadas pelo vento e pela facilidade de combustão das casas. O resultado foi devastador: mais de 1.500 pessoas ficaram desabrigadas, mais de 300 moradias foram destruídas e três crianças morreram no episódio. Sônia Rodrigues Santana. Aos 84 anos, ela se recorda do incêndio de 1957 Divulgação/Paula Johas As três crianças que faleceram devido ao incêndio foram o menino Livaldo, de 2 anos, e as bebês Shirlene, de 1 ano, e Maria Regina, de 6 meses, respectivamente vizinho e filhas de Estela Corrêa Osório. O incêndio começou justamente na casa de Estela e foi propagado por uma forte ventania que soprava na ocasião, como consta nos documentos da época e como recorda Sônia. Jorge Luís Corrêa Osório, de 66 anos, é filho de Estela e morador do Morro Azul. Ele não era nascido na época do incêndio, quando suas irmãs morreram. — Minha mãe dizia que não gostava do mês de agosto porque foi quando houve a tragédia lá em casa. Ela perdeu duas filhas e o garoto do qual ela tomava conta. O incêndio começou na casa dela e, como os barracos eram todos de madeira, o fogo lambeu tudo — recorda Osório. Mas para além dos números, o que ficou foi o impacto na vida cotidiana de toda uma comunidade que, de uma hora para outra, perdeu o que tinha construído ao longo de anos. A resposta à tragédia mobilizou diferentes frentes de atuação. Entre elas, o Serviço Social da Indústria (Sesi), que à época mantinha uma unidade na Rua Marquês de Abrantes, aos pés do Morro Azul. O espaço passou a funcionar como ponto de apoio emergencial, com distribuição de refeições e acolhimento de parte dos desabrigados, integrando uma rede de solidariedade que também envolveu escolas, igrejas e outros equipamentos públicos da região. — O incêndio no Morro Azul foi um marco na atuação do Sesi. Ali, iniciou-se o apoio a comunidades que passaram por grandes tragédias, como recentemente no Rio Grande do Sul com as grandes enchentes. O grande desafio, no Brasil e no mundo, vinculado às mudanças climáticas está em como apoiar as comunidades a partir de tudo o que elas viveram e perderam e do que precisam reconstruir. Nosso papel na saúde, na educação, na cultura e no lazer é, de alguma forma, contribuir com este processo, levar condições para que as populações se reconstruam e se ressignifiquem a partir das dificuldades vividas — destaca Fausto Augusto Junior, presidente do Conselho Nacional do Sesi. Luís Corrêa Osório. Duas irmãs dele morreram na tragédia Divulgação/Paula Johas Além do Sesi, a prefeitura atuou no atendimento emergencial, oferecendo abrigo no Albergue da Boa-Vontade, nos colégios Santa Úrsula e Bennett e no Clube Infantil São Paulo. — O Centro Social do Sesi oferecia festas e presentes para as crianças, tratamentos às senhoras de idade. Vivíamos brincando no prédio. Tínhamos médico e dentista. Havia curso de corte e costura. Muita gente aprendeu uma profissão, aprendeu a ler e a escrever, a cozinhar. Os funcionários do Sesi vinham à comunidade para conversar com as donas de casa, com os moradores — recorda Sônia. O pós-incêndio não foi apenas institucional. Ele foi também profundamente comunitário. Moradores começaram a reconstruir suas casas praticamente sobre os escombros. Madeira era reaproveitada, estruturas eram erguidas com o que havia disponível. A reconstrução foi lenta, mas contínua, marcada mais pela urgência da sobrevivência do que por qualquer planejamento urbano formal. Do pós-tragédia à transformação Nesse processo, ganha força a atuação do padre Paulo Riou, que chega ao Brasil no início da década de 1950 e passa a se dedicar ao Morro Azul. Segundo Sônia, o padre fazia pedidos nas fábricas de materiais para reconstruir as casas. Além disso, sua atuação incluiu a fundação da Creche do Morro Azul e o estabelecimento de critérios de urbanização que eliminaram as casas de madeira e reduziram áreas de risco, bem como a construção da Capela de Nossa Senhora de Lourdes, no alto da comunidade. Edifício Padre Paulo Riou. Construção leva o nome do padre que teapós o incêndio dos anos 1950 Divulgação/Cecília Gonçalves Os materiais foram recolhidos também para a finalização do Edifício Padre Paulo Riou, que está localizado aos pés do Morro Azul. Com 56 apartamentos, de um a três quartos, o prédio, hoje, precisa de uma reforma, como conta Pablo Fabiano Lima Silvério, de 50 anos, presidente da Associação dos Moradores do Bairro Azul (Abam). —Estamos tentando parcerias para fazer a reforma estrutural e elétrica. Esse é um sonho, pois o edifício é a nossa porta de entrada — diz. Com o passar das décadas, outras mudanças chegam. A energia elétrica passa a fazer parte do cotidiano. A água encanada substitui as longas caminhadas até o Palácio Guanabara. E a abertura da estação de metrô Flamengo, que chegou a se chamar estação Morro Azul, reorganiza o fluxo da região, aproximando ainda mais o morro da dinâmica da cidade formal. O Morro Azul não desapareceu e hoje permanece como comunidade ativa, com suas próprias redes e formas de organização. Este ano, o Sesi completou 80 anos, celebrados em 1º de julho. Criado em 1946, no Rio de Janeiro, a instituição tem atuação em áreas como educação, cultura, esporte, saúde e bem-estar. No Morro Azul, essa presença atravessa décadas, desde o socorro emergencial no incêndio de 1957 aos projetos atuais da Firjan Sesi Cidadania. — O Sesi não nasceu com este nome, há 80 anos, à toa. As ações do passado e do presente no Morro Azul reforçam um compromisso com os industriais e com os trabalhadores, mas também com a sociedade. Ao abrirmos as portas da nossa instituição para os moradores das comunidades, ou quando temos nossos agentes comunitários atuando com afinco, entendemos que nosso objetivo está sendo cumprido. O Morro Azul é um ótimo exemplo da atuação da Firjan Sesi Cidadania em 34 territórios da Região Metropolitana — diz Luiz Césio Caetano, presidente da Firjan. Sesi. Unidade na Marquês de Abrantes funcionou como ponto de apoio Divulgação/ Sesi Dona Sônia hoje participa do projeto Longevidade, voltado para pessoas acima de 50 anos, com atividades de convivência, exercícios físicos leves e estímulo à saúde mental. Também frequenta a Indústria do Conhecimento, espaço gratuito que oferece leitura, acesso à internet e atividades culturais dentro da própria comunidade. — Eu gosto de vir. A gente conversa, faz exercício, aprende coisa nova. Isso faz bem pra cabeça e pro corpo — diz. Ao lado dela, uma nova geração dá continuidade a essa história dentro do mesmo território. Cecília Gonçalves tem 28 anos, nasceu e cresceu no Morro Azul e hoje atua como agente de conhecimento da Firjan Sesi Cidadania. — A gente vai até as pessoas. Não espera ninguém vir sozinho. O espaço só funciona porque é da comunidade — afirma. Na Indústria do Conhecimento, espaço que oferece uma série de atividades educacionais, culturais e tecnológicas que atendem a demandas de sete comunidades do Rio (Morro Azul, Borel, Cidade de Deus, Formiga, Prazeres, Providência e Santa Marta), o cotidiano mistura idades e experiências. Crianças usam computadores, jovens participam de oficinas, adultos frequentam atividades formativas e idosos compartilham memórias enquanto participam de encontros e projetos de convivência. — A Indústria do Conhecimento é um espaço versátil, onde temos uma biblioteca com um acervo grande de livros, computadores para uso gratuito, projetos que criamos para falar de temas como racismo ambiental, diversidade, ética digital. Tudo isso a partir da escuta das demandas da comunidade. No projeto Longevidades, faço muito artesanato com as participantes, reaproveitando coisas que, muitas vezes, a gente joga fora e que podem ser transformadas em arte. Também busco incluí-las na era digital, pois elas não podem ficar para trás — explica Cecília. Para Cecília, essa convivência diária revela algo que atravessa toda a história do lugar. — Aqui tudo se mistura com a memória. Tem gente que viveu o incêndio, tem gente que nasceu muito depois, mas todo mundo faz parte de uma mesma história — diz.

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