'Não trabalho com isso porque é um hype, mas porque é meu meio', diz Refik Anadol, à frente do 1º museu dedicado à arte feita com IA
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Extra Online'Não trabalho com isso porque é um hype, mas porque é meu meio', diz Refik Anadol, à frente do 1º museu dedicado à arte feita com IAglobo.comComo é possível apreciar a beleza de uma floresta tropical em meio ao impacto brilhante de 1,5 bilhão de pixels? Este é o plano do artista turco Refik Anadol, que acaba de inaugurar em Los Angeles o Dataland, primeiro museu focado em arte feita com inteligência artificial. Tchotchomeri: Cortes de cabelo que dominam favelas cariocas viram exposição em centro cultural no Rio Artigo: Vik Muniz faz Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas Idealizado ao lado da também artista Efsun Erkilic, com quem Refik é casado, o endereço já recebe os primeiros visitantes. O impacto das imagens, em vídeo, criadas por IA foi tamanho que muitos “mal pegavam os celulares”, jura o artista. Ao longo da conversa em vídeo com o GLOBO, Refik — um dos principais nomes da arte feita com essa tecnologia e que tem uma obra no acervo do respeitado The Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York — conta que tem planos de exibir projeções no Brasil no ano que vem, fala dos desafios éticos e ambientais de um museu como esse e garante que a IA não é um “hype”, mas seu método de trabalho. “Não sei usar as ferramentas para fazer pintura ou escultura, mas sei usar o computador.” “Acho que conseguimos transmitir a ideia de sentir a natureza a partir dos dados”, diz Refik Divulgação Por que decidiu chamar o Dataland de museu? Poderia ser uma galeria, um pavilhão de exposições… Podemos pensar em duas partes. “Data” é algo digital, virtual, já “Land” é físico, algo tangível. Eu pensei que era o nome certo para o que está acontecendo agora em nossas vidas. Os dados são uma nova língua da Humanidade, na qual não há palavras, mas a representação matemática da memória. Chamamos isso de museu porque não gostamos de nos ver como mais um lugar para tecnologia. Queremos criar uma comunidade que crie impacto, além de exibir arte. Que tipo de experiência esse museu provoca? Vejo que é o lugar onde o futuro acontece. É (onde está) a colaboração entre humanos e máquinas. As pessoas dizem que somos um museu de IA ou algo assim, mas o mais importante não é a IA, e sim essa ideia de cooperação de homem e máquina. Estamos tentando encontrar formas nas quais a IA enriqueça a criatividade humana. O museu tem uma tecnologia que é capaz de sentir as batidas do coração (dos visitantes, por meio de sensores em uma pulseira), a temperatura, os sinais da audiência. Isso é para lembrar que a obra de arte só faz sentido com as pessoas. "Estamos tentando encontrar formas nas quais a IA enriqueça a criatividade humana”, afirma Refik Anadol, diretor do Dataland, em Los Angeles Divulgação Você ainda sente algum prazer em observar as projeções do museu? Sim. Quase dois anos se passaram (para o projeto sair do papel). Desde que abrimos as portas, recebemos milhares de pessoas. Elas se sentem conectadas. Essa primeira exposição veio da minha experiência visitando o Acre, no Brasil, e é dedicada às florestas tropicais. Acho que conseguimos transmitir a ideia de sentir a natureza a partir da perspectiva dos dados. As pessoas podem ouvir cantos dos pássaros, sentir o cheiro das flores. Então existe certa interpretação da Amazônia pela máquina… Há cinco anos, quando estive na Amazônia, foi um momento incrível para mim. Aprendi muito. Um dos momentos mais incríveis foi quando conheci um dos chefes do povo yawanawa. Perguntei o que a natureza significava para eles e a resposta foi: é uma inteligência viva. Desde então tenho sido muito inspirado por essa ideia. Além disso, eu estava muito seguro em fazer uma pesquisa ética nessa área. Sempre pedimos permissão para o material que usamos (para treinar o algoritmo). A maioria dos nossos dados de natureza vem dos arquivos do Smithsonian (maior complexo de museus, pesquisa e educação do mundo, em Washington, DC). E o consumo de energia? Dá para ter impacto zero? Conseguimos chegar a 87% de energia renovável. Há três anos, começamos uma parceria com a Google Cloud que foi o único serviço disposto a experimentar o trabalho com energias sustentáveis. Nosso museu não é tão grande, não temos uma plataforma de bilhões de pessoas. Em que lugar na história da arte você acha que se insere? Sinto que estamos nos movendo para um novo tipo de arte, em que a arquitetura, a IA, a neurociência, música, o cinema, o balé e o teatro se unem em um novo sentimento. Nós temos 1,5 bilhão de pixels, é uma resolução extraordinária. Também queremos experimentar com o olfato. Estamos tentando encontrar uma nova língua, um novo vocabulário para o nosso trabalho, para esse meio, mas no fim das contas é um tipo de arte digital. Sou desse mundo. Também tenho um grande respeito por Mark Rothko (1903-1970), Jackson Pollock (1912-1956), (e os contemporâneos) James Turrell e Yayoi Kusama. São muitos os artistas que inspiram meu trabalho. Mas, claro, eles usam ferramentas tradicionais, eu estou fazendo meu melhor para encontrar um outro tipo de movimento. Estamos todos cansados dos computadores, celulares... Como pode o Dataland, cheio de telas, sobreviver em tempos assim? Isso vai ser interessante para você: nesses primeiros dias de abertura, o museu é tão impactante que as pessoas mal olham para o celular. Elas são teletransportadas para um novo mundo. Historicamente, a arte fez frente aos desafios do momento em que foi feita. Como pode a arte feita com IA refletir justamente a maior ansiedade do nosso tempo, que é a própria IA? Todo artista representa o tempo em que vive. Então, eu acho que ser um artista significa estar presente, refletindo o agora. Eu não sei como usar as ferramentas tradicionais para fazer uma escultura ou uma pintura. Mas sei como usar computador, internet, e sei trabalhar com IA. Não trabalho com isso porque é um hype, mas porque é meu meio. A IA vai mudar tudo o que nós temos. Antes de as pessoas rejeitarem essa tecnologia ou terem preocupações, histeria, nós estamos tentando mostrar ao mundo o que podemos fazer com ela. Como podemos apoiar a criatividade? Como podemos apoiar a imaginação? Assim como os artistas que refletiram seu tempo, eu faço isso com o Dataland. Se você preenche uma ficha de entrada num hotel, diz que sua profissão é... Sou um artista. E sou diretor, porque tenho uma equipe incrível.
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