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Karl Lagerfeld, o homem que queria desaparecer sem deixar rastros, tem mais de mil croquis leiloados em Paris

2d agopt

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Extra OnlineKarl Lagerfeld, o homem que queria desaparecer sem deixar rastros, tem mais de mil croquis leiloados em Parisglobo.com
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Eu trabalho para a lata de lixo”, disparou Karl Lagerfeld sobre sua compulsão de desenhar e descartar tudo que não lhe agradava. Era uma coisa louca: papéis amassados aos montes, jogados fora para que ninguém jamais os recuperasse e os usasse em algo que ele não tivesse aprovado. O estilista dizia ainda que, quando morresse, gostaria de desaparecer na floresta como os animais selvagens, sem se preocupar em deixar legado nenhum, porque isso não teria a menor importância — afinal, ele não estaria aqui para aproveitar, apenas os outros. Detestava nostalgia, retrospectivas, homenagens à própria carreira. Repetia que não guardava nada, que rasgava tudo, que não mantinha arquivo pessoal algum. Por isso surpreende o leilão que acontece nesta semana na Sotheby’s de Paris. Até o dia 8, na temporada de alta-costura, a casa promove a sexta e última venda dedicada à sua sucessão, batizada “KARL, Karl Lagerfeld’s, Estate VI, Inspirations”. No coração do evento, mais de mil desenhos inéditos, jamais mostrados ao público, guardados pelo estilista alemão, morto há sete anos. O homem que jurava não conservar nada conservava, afinal, o que tinha de mais íntimo: o próprio pensamento traduzido em traço. E que traço. Lagerfeld foi o estilista mais prolífico de sua geração, e tenho certeza de que das próximas também. Foram mais de 50 anos à frente da Fendi, quase duas décadas na Chloé e 36 anos comandando a Chanel, de 1983 ao último suspiro, em 2019. Produzia dezenas de croquis num único dia, o lápis correndo direto atrás do fio do raciocínio, sem hesitação. A tinta era sua matéria predileta, mas vinham também aquarela, canetas coloridas, lápis de cera, Tipp-Ex e, mais surpreendente, maquiagem: sombra, batom, o que estivesse à mão para resolver uma silhueta. Karl narrava e desenhava ao mesmo tempo, como quem faz uma transmissão ao vivo com a caneta. Você assistia a uma história nascer no instante em que a mão se movia: a manga, a gola, o drapeado, a mulher inteira surgindo de um rabisco. E aqui mora o detalhe mais especial deste leilão: nenhum desses desenhos foi entregue às maisons para as quais ele trabalhava. Eram papéis seus, particulares, que guardou como artista até a morte. “A moda começa no papel e permanece no papel”, dizia. Mas há um outro lado nessa profusão de folhas: a solidão. Karl passava o dia inteiro desenhando, porque o trabalho exige disciplina, e a disciplina exige uma certa clausura. O público só via o glamour, os óculos escuros, as luvas, o leque, as frases lapidares, os desfiles, a corte ao redor. Por trás do personagem, porém, havia um operário da moda. É fruto da geração estoica que saiu da Segunda Guerra: não explique, não reclame. Dizia que nenhuma cliente quer saber quantas horas você dedicou à labuta: “Ela não compra por piedade, mas porque a roupa é bonita.” O que torna este leilão tão excitante é justamente essa ironia. O homem que queria sumir sem rastro vê agora seu rastro mais secreto exposto e disputado lance a lance, todos os lotes partindo de um euro, sem preço de reserva. Os papéis que ele mandaria para o lixo tornaram-se relíquias. E o mercado já provou ter fome dessa intimidade: em 2021, o desenho “Les trois muses”, de 1986, foi arrematado por mais de 200 mil euros; um conjunto de quatro cadernos de croquis dos anos 2000 saiu por 315 mil. Há ainda os lotes inesperados, os cerca de duzentos iPods. Karl comprava um aparelho para cada gênero — techno, barroco, clássico — porque se recusava a misturar estilos no mesmo dispositivo. Funcionam todos, embora a Apple os tenha aposentado. A trilha sonora que embalou uma época em que o trabalho duro ainda era requisito para chamar alguém de gênio.

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