O cometa chamado Erling Haaland, uma máquina goleadora, faz a Noruega sentir-se autorizada a ambicionar voos nunca antes imaginados na Copa do Mundo. Mas, acreditem, ele não é o esportista mais dominante em seu país. Isso, é claro, se entrarmos em um acordo de que o xadrez é um esporte. Acontece que o pedregoso solo norueguês fez brotar também Magnus Carlsen, 35 anos, amplamente considerado um dos maiores enxadristas da história. Sem questionar a influência de Haaland no futebol, é Carlsen quem pode pleitear o status de “melhor de todos os tempos”, o famoso GOAT, de sua modalidade. Está longe de ser uma hipérbole. Muitos especialistas o consideram maior do que o norte-americano Bobby Fischer e do que Garry Kasparov, nascido no Azerbaijão, ainda nos tempos da União Soviética. Fischer teve um impacto cultural imenso no xadrez, especialmente após vencer, em 1972, o “Duelo do Século” contra Boris Spassky. Assim, colocou fim à hegemonia soviética e tornou-se o primeiro campeão mundial nascido nos Estados Unidos, em plena Guerra Fria. Kasparov manteve a pontuação mais alta da história por muito tempo (até ser superado por Carlsen, em 2014) e manteve um domínio absoluto por duas décadas, além de ter se tornado célebre pelas partidas contra o supercomputador Deep Blue, desenvolvido pela IBM, nos anos 1990. Nos últimos 15 anos, no entanto, ninguém ameaçou Carlsen. O Messi nórdico do tabuleiro acumula 21 títulos mundiais (entre xadrez clássico e versões rápidas). Mais do que isso, tornou-se um verdadeiro pop star na Noruega, além de ter elevado o jogo milenar ao status de febre nacional — cerca de 25% da população (1,4 milhão de pessoas) está cadastrada no Chess.com, a maior plataforma de xadrez online do mundo. Os gigantes se reconhecem. Entusiasta do futebol, tempos atrás Magnus Carlsen, que torce para o Real Madrid, já apostava que a Noruega poderia surpreender na Copa devido à fúria artilheira de Haaland. E costuma fazer comparações entre o campo e o tabuleiro: — No xadrez, assim como no futebol, a chave é controlar o centro. Se você controla o centro, você controla o campo, ou o tabuleiro. Em termos de dinâmica espacial, a semelhança é impressionante. Ele fala com alguma autoridade, pois o futebol era sua atividade preferida na infância, e se diz até que leva algum jeito quando troca as mãos pelos pés. Não seria apenas mais um peão no gramado — quem sabe, um bispo, uma torre ou até um abnegado meio-campista. Efeito Magnus Haaland era indiferente ao xadrez, mas provavelmente também se deixou encantar pelo “Efeito Magnus”. Tanto que há poucos meses investiu um valor milionário no Total Chess World Championship Tour, novo circuito de xadrez que será disputado a partir de 2027 e vai distribuir até 2,7 milhões de dólares em prêmios — e, obviamente, terá Magnus Carlsen como a maior atração. Ainda nos tempos de Borussia Dortmund, o artilheiro fez questão de posar com o enxadrista no gramado do Signal Iduna Park. O fascínio que o tabuleiro exerce nos protagonistas do futebol não é novidade. Mohamed Salah já confidenciou que é viciado no jogo. Harry Kane também move as peças com frequência, assim como Nuno Moreira, atacante do Vasco, e Filipe Luís, ex-técnico do Flamengo. Eberechi Eze até venceu um torneio amador ano passado. E, obviamente, o xadrez não passaria despercebido pela obsessão estratégica de Pep Guardiola. O técnico espanhol até participou de um encontro com Carlsen. Como se Haaland e Carlsen não fossem suficientes, a prova de que o país nórdico é aquele lugar encantado em que futebol e xadrez andam de mãos dadas está em Simen Agdestein. Jogador de futebol profissional que chegou até a defender a seleção norueguesa, ele abandonou os gramados para se dedicar ao xadrez, inclusive conquistando vários campeonatos nacionais. No entanto, a maior contribuição de Simen para o Reino da Noruega, e para o esporte, aconteceria tempos depois, quando se tornou justamente o primeiro treinador de Magnus Carlsen. Nessa época, Haaland devia ter apenas uns dois anos — e 67 gols marcados. Talvez não exista outro país em que o futebol se aproxime tanto de um jogo de xadrez, e não apenas como metáfora. *Especial para O GLOBO
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