O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta terça-feira, em audiência em Washington, que o "momento" eleitoral é o "pior possível" para a implementação do tarifaço de 25% proposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros e pediu a suspensão das taxas. Diante da defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva da "soberania" brasileira e da acusação de "entreguismo", Flávio tentou conter danos eleitorais, criticou o atual chefe do Executivo e afirmou que o Pix não compete com os sistemas americanos. A audiência foi organizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e não foi transmitida. Em nota publicada após a apresentação de cerca de cinco minutos, o senador voltou a defender uma negociação entre Brasil e Estados Unidos para encerrar o impasse comercial. Flávio chegou pouco antes das 11h no local da audiência e começou se manifestar às 11h45m, em inglês. — Em apenas noventa dias, o cenário político do país poderá ser completamente diferente. Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter, premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências, seria o pior momento possível para agir — afirmou Flávio na audiência, segundo a nota enviada por sua assessoria. A apresentação ocorreu após dias de desgaste para a campanha. Na semana passada, Flávio entregou ao USTR um documento de 86 páginas propondo que a entrada em vigor das tarifas fosse suspensa enquanto os dois países negociassem os temas da investigação comercial. A proposta foi explorada pelo governo Lula e interpretada por adversários como uma defesa do adiamento das medidas para depois das eleições de 2026. Nos bastidores, interlocutores do senador passaram a afirmar que o parecer havia sido “mal interpretado” e que a audiência seria utilizada justamente para deixar explícito que Flávio é contrário ao tarifaço. A mudança de estratégia ganhou força depois da ofensiva de Lula, que acusou integrantes da família Bolsonaro de atuarem contra os interesses brasileiros ao manter interlocução direta com autoridades americanas durante a investigação comercial. Em resposta, Flávio passou a sustentar que o governo estaria explorando politicamente a crise e que sua atuação busca impedir a adoção das tarifas. Logo no início da audiência, o senador procurou reforçar essa mensagem. — Não imponham as tarifas ao Brasil, preservem o sucesso do Pix e cancelem esta medida para que possamos negociar — afirmou aos integrantes da comissão responsável pela investigação. Flávio lembrou que havia defendido o mesmo posicionamento em encontros realizados em maio com o presidente Donald Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio. Segundo ele, a sobretaxa produziria prejuízos tanto para a economia brasileira quanto para empresas e consumidores americanos. Ao longo da apresentação, o senador retomou um dos principais argumentos políticos utilizados desde a entrega do parecer ao USTR: o de que uma nova rodada de tarifas acabaria fortalecendo, e não enfraquecendo, o governo Lula. — Os dados de 2025 mostraram que as tarifas não produziram os resultados pretendidos pelos Estados Unidos. Em vez disso, elas foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro. Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro, exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões — disse Defesa do Pix Outro eixo da apresentação foi a defesa do Pix, um dos temas incluídos na investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. Flávio afirmou que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não representa concorrência desleal às empresas americanas, mas uma política pública que ampliou a inclusão financeira da população. — O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, para a economia formal. Esse avanço também beneficiou diretamente empresas americanas, já que o volume de transações processadas por cartões de bandeiras dos Estados Unidos continuou crescendo paralelamente à ampla adoção do Pix, uma vez que esses serviços se complementam e não competem com o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos — afirmou. Outros pontos da audiência De acordo com o portal g1, Flávio também fez críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF) quando tratou de decisões que removeram conteúdos das redes sociais. — (As ordens) foram emitidas por ministros do Supremo Tribunal Federal e pela administração do presidente Lula. As medidas decorrem de decretos do Poder Executivo e de decisões judiciais, e não de leis aprovadas pelo parlamento — afirmou Flávio. A audiência integra a etapa final da investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na legislação americana. Além do Pix, o procedimento avalia políticas brasileiras relacionadas ao comércio digital, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, tarifas preferenciais, combate à corrupção e desmatamento ilegal. As manifestações apresentadas durante os dois dias de audiência servirão de subsídio para a recomendação técnica que será encaminhada ao governo americano antes da decisão definitiva sobre a aplicação ou não das tarifas, prevista para 15 de julho. Enquanto Flávio fazia sua apresentação, o governo brasileiro manteve a estratégia de acompanhar a audiência sem participar como expositor. O Itamaraty enviou uma observadora da Embaixada do Brasil em Washington e reiterou que a sessão promovida pelo USTR não é considerada um canal formal de negociação entre os governos, mas um espaço destinado a ouvir representantes do setor produtivo e da sociedade civil. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, as negociações oficiais continuam sendo conduzidas pelos canais diplomáticos, incluindo contatos recentes entre o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Além de Flávio, participaram da audiência representantes da indústria brasileira, empresas americanas e entidades empresariais. Entre eles estavam o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, representando a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), além de representantes da indústria calçadista e de importadores americanos.
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