Há apenas alguns anos, a Turquia era vista como o valentão da Otan, a principal aliança militar do Ocidente, liderada pelos EUA. Ela irritou aliados ao atrasar os processos de adesão de novos membros. Se recusou a aplicar sanções à Rússia sobre a guerra na Ucrânia, e seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, se referia ao líder russo, Vladimir Putin, como “querido amigo”. As tendências autoritárias de Erdogan também causavam desconforto nos altos círculos. Imagem manipulada: Governo italiano sai em defesa de Meloni após novo ataque de Trump antes da cúpula da Otan ‘Atividade insegura’: Caças britânicos interceptam avião russo em operação da Otan no Mar da Noruega Agora, novos acontecimentos, incluindo as guerras na Ucrânia e Irã, além do retorno do presidente Donald Trump à Casa Branca, mudaram a imagem da Turquia aos olhos da Otan, aumentando seu valor na aliança militar, apontam analistas e membros dos governos da organização. Quando Erdogan der as boas-vindas aos membros da Otan na capital turca, Ancara, para a reunião de cúpula desta semana, será como o chefe de um país cuja indústria militar e as Forças Armadas de grande porte são vistas como cruciais para o futuro da aliança, e como um líder capaz de agradar a Trump. Existe um “reconhecimento” da importância da Turquia, afirmou o chanceler turco, Hakan Fidan, em entrevista ao New York Times uma semana antes da reunião. — Existe um despertar à luz do novo ambiente de segurança e de ameaças na Europa — acrescentou. A cúpula ocorre em meio à ampla repressão ordenada por Erdogan contra seus adversários políticos. Mas a principal potência da aliança, os EUA, não menciona mais o assunto. Questões levantadas por alguns membros da Otan sobre o estilo autocrático de Erdogan tampouco devem ser tratadas publicamente. Ao invés disso, os países priorizam agora o fortalecimento de suas capacidades para evitar e possivelmente se defender de ataques russos. — Para os europeus, o lobo que está do lado de fora não é o estado da democracia turca — disse John Bass, ex-embaixador americano na Turquia. Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, participa de revista da guarda de honra em Belgrado, na Sérvia Oliver Bunic/Bloomberg A cúpula da Otan será a primeira no país desde 2004, quando George W. Bush era presidente dos EUA e Erdogan estava no primeiro mandato como primeiro-ministro. Ali, a Turquia queria usar o evento para se apresentar como uma potência em ascensão. Na reunião desta semana, as delegações vão pousar em uma pista recém-recapeada, e entrarão em um terminal VIP novo em folha. As discussões, previstas para terça e quarta-feira, ocorrerão no amplo complexo presidencial de Erdogan. O primeiro dia terá um fórum de defesa, permitindo que as empresas turcas apresentem seus drones e outras armas de fabricação nacional. No segundo dia, os líderes discutirão orçamentos de defesa e as capacidades militares industriais do bloco. Vários membros estão preocupados com o futuro. A guerra na Ucrânia reduziu os estoques nos arsenais europeus, jogando luz sobre a capacidade dos membros da Otan de produção de armas e munições. Trump ameaçou reduzir o papel dos EUA na aliança, ou retirar o país dela, aumentando os temores de que ele não enviaria suas tropas caso a Rússia decida atacar os aliados da organização. Um F-35 sobrevoa a Polônia Divulgação/Lockheed Martin Os possíveis ganhos concretos da Turquia com a reunião ainda não estão nítidos. O governo Trump disse que gostaria de vender seus caças de quinta geração F-35 aos turcos, mas o país foi impedido de comprá-los em 2019, depois de adquirir o sistema de defesa aérea russo S-400. O negócio ainda conta com a oposição explícita de Israel, um aliado de primeira hora dos EUA e cujas relações com Ancara passam longe de serem pacíficas. Nesta segunda-feira, o premier Benjamin Netanyahu disse que o fornecimento dos caças — Israel tem cerca de 50 dessas aeronaves — a Ancara “mudaria o equilíbrio de forças no Oriente Médio”. Ele não disfarçou o desconforto com declarações recentes de Hakan Fidan, quando disse que Israel era "o problema do mundo", e que "eles se tornaram um fardo que a humanidade não pode mais suportar". — Ele disse que o Estado judeu não tem lugar na humanidade, basicamente, que ele deve ser eliminado — disse Netanyahu à Fox News, sem revelar se os apelos foram ouvidos por Washington. Mesmo assim, Erdogan já pode ostentar uma vitória mesmo antes do início da cúpula: sem ele, Trump provavelmente não teria concordado em comparecer. — Se não fosse pelo fato de que [a reunião] será realizada na Turquia pelo presidente Erdogan, creio que não iria — disse o presidente americano a jornalistas recentemente. Mostram dados: Tombo autoritário no Trump 2.0 foi mais veloz do que na Rússia de Putin, na Turquia de Erdogan e até na Venezuela A Turquia se juntou à Otan em 1952, mas as relações com os demais parceiros nem sempre foram tranquilas. Quando Ancara comprou o sistema de defesa aérea russo, alguns acusaram o país de manter relações muito próximas com um adversário. Essas queixas ganharam força após a invasão russa da Ucrânia, em 2022, quando o país continuou a comprar petróleo e gás da Rússia, e Erdogan não parou de se encontrar de forma amistosa com Putin. A Turquia há muito tempo acusa os aliados da organização de ignorarem suas questões internas de segurança, de hesitarem em ampliar a cooperação de defesa e de ignorarem as pressões advindas de sua posição geográfica entre a Europa, Ásia e Oriente Médio. Mural com promoção da cúpula da Otan em Ancara, na Turquia Adem ALTAN / AFP Mas os últimos anos foram marcados por uma nova forma de encarar o que a Turquia pode trazer para a aliança. Sua rede de relações diplomáticas inclui não apenas as grandes forças de Oriente e Ocidente, mas também dos Bálcãs, África e Oriente Médio. Laços usados para mediar diversas crises no passado recente. A Turquia ajudou a evitar o colapso da Síria após a queda de Bashar al-Assad em 2024. Ela usou os contatos com o Hamas nas negociações de paz para a guerra em Gaza, e manteve contatos com o Irã durante o conflito lançado em fevereiro, apesar de ser atingida por alguns de seus mísseis. Seus líderes falam regularmente com contatos na Ucrânia e Rússia, e a relação de Erdogan com Putin é vista de outra forma agora. — Conforme o conflito na Ucrânia se arrasta, alguns europeus acham útil ter alguém capaz de manter contato com os russos — disse Bass. A guerra na Ucrânia e o desdém de Trump pela aliança foram cruciais para a virada de chave sobre a percepção do papel da Turquia na Otan. Elas ressaltaram as preocupações sobre a produção das armas necessárias para apoiar a Ucrânia, conter a Rússia e permanecer forte mesmo se os EUA reduzirem seu grau de envolvimento. Na Casa Branca: Chefe da Otan abusa de elogios e números para amenizar tensões entre Trump e a aliança militar Ancara tem a segunda maior Marinha da Otan, atrás apenas dos EUA, controla o acesso ao Mar Negro e é responsável por boa parte do flanco sul da aliança. Mas a confiança entre os turcos e demais membros segue baixa devido a disputas políticas ou à preocupação sobre o compromisso de Erdogan com a democracia. A Turquia reclama por ter sido excluída dos planos para reforçar a segurança da Europa através da União Europeia, da qual não faz parte. Por enquanto, o desejo de trabalhar com a Turquia enquanto a Otan enfrenta seus desafios deu a Erdogan um benefício importante: o silêncio dos aliados enquanto expande seus poderes internos.
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