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'É preciso pelo menos 48h para entender se de fato o cessar-fogo com Irã acabou, como diz Trump', analisa professor
Entenda por que o Irã ainda ataca navios em Ormuz apesar do cessar-fogo
4h agopt
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Os recentes ataques do Irã e dos Estados Unidos têm exposto um dilema crescente para a liderança linha-dura da República Islâmica. De um lado, o controle da passagem do Estreito de Ormuz é amplamente visto como instrumento de pressão nas negociações com Washington. De outro, setores do governo veem sua influência enfraquecer à medida que mais embarcações conseguem atravessá-la. Diferentes interpretações sobre como agir diante do impasse levaram à escalada dos ataques de ambos os lados, com o presidente americano, Donald Trump, afirmando nesta quarta-feira que a trégua provisória com Teerã chegou ao fim. — Para mim, acho que acabou — disse o republicano em Ancara, sentado ao lado do secretário-geral da Otan, Mark Rutte, durante a cúpula anual da aliança militar. — No que me diz respeito, é uma perda de tempo. ‘Eles são lixo, governados por doentes’: Trump diz que cessar-fogo com Irã ‘acabou’ Contexto: EUA atacam Irã e revogam suspensão das sanções sobre petróleo do país após navios serem alvejados em Ormuz Um dia antes, ataques atribuídos pelos EUA ao Irã atingiram três navios comerciais nas proximidades do estreito. A medida repetiu uma ofensiva realizada duas semanas antes, cujo objetivo era interromper o tráfego em uma rota que seguia pelo sul, ao longo da costa de Omã. Nas últimas semanas, o Irã tem advertido empresas de navegação a evitarem esse trajeto e, em vez disso, utilizarem a rota ao norte, sob seu controle. Mapa mostra onder fica o Estreito de Ormuz Arte O Globo Apesar da ameaça de novos ataques, conservadores em Teerã acompanham com crescente preocupação o retorno de embarcações que haviam deixado de cruzar o estreito durante a guerra, agora utilizando a rota apoiada pelos EUA próxima a Omã. Desde o acordo preliminar firmado entre os dois países para reduzir gradualmente as hostilidades, o tráfego pelo estreito voltou a crescer e a oferta de petróleo se recuperou, fazendo os preços recuar para níveis próximos aos de antes do conflito. Ao mesmo tempo, os produtores de petróleo aceleraram investimentos em rotas alternativas e em instalações de armazenamento no exterior, numa tentativa de contornar esse gargalo estratégico. O fluxo de petróleo bruto por Ormuz voltou para cerca de 8 milhões de barris por dia no início do mês, cerca de metade do registrado antes da guerra, enquanto cresce a oferta proveniente dos EUA, Brasil, Cazaquistão e Venezuela. Guga Chacra: O Irã está ‘forçando a mão’ ao atacar navio em Ormuz? Esse aumento, porém, reduz gradualmente o poder de barganha do Irã, que já deixou claro seu desejo: na avaliação de Teerã, embarcações interessadas em atravessar a rota vital devem obter previamente sua autorização, utilizando suas águas. Futuramente, a República Islâmica também espera poder cobrar taxas pelo trânsito da via, por onde passava cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural comercializados no mundo antes da guerra começar, em 28 de fevereiro. — Os ataques [do Irã contra embarcações] têm como objetivo interromper e desencorajar os navios de atravessarem o estreito — afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para Oriente Médio e Norte da África do centro de estudos Chatham House, em Londres, ao WSJ. — Essa estratégia e a autoridade do Irã estão apresentando retornos cada vez menores. Eles estão cortando o galho em que estão sentados. Pontos de discórdia A movimentação dos navios pelo corredor ao sul teria irritado críticos internos do acordo preliminar de paz com os EUA, cujo objetivo principal era reabrir o estreito e aliviar a pressão sobre os preços do petróleo. Após analisar dados que mostravam o aumento das exportações de petróleo, Ehsan Hosseini, editor-chefe do site conservador iraniano Khat-e Energy, responsabilizou os negociadores do país por aceitarem o corredor de Omã. — Seu grave erro é imperdoável — disse, dirigindo-se aos diplomatas iranianos em um vídeo publicado em seu canal no YouTube. — Alguém amarrou as mãos das Forças Armadas. Vídeo mostra explosões: Conflito entre EUA e Irã volta a ameaçar navegação no Golfo e dificulta resgate de marinheiros pela ONU A tentativa do Irã de controlar o estreito tornou-se um dos principais pontos de discórdia no debate interno sobre como lidar com o Ocidente, publicou o WSJ. Líderes civis, entre eles o presidente Masoud Pezeshkian, esperam desbloquear bilhões de dólares em recursos congelados para aliviar a situação de milhares de iranianos afetados pelas consequências da guerra e por uma crise econômica já existente. A Guarda Revolucionária, por outro lado, pretende manter controle total sobre a via, buscando ampliar sua influência regional. — Se qualquer navio atravessar essa via sem permissão e sem observar as leis da República Islâmica, será afundado nas profundezas do Golfo Pérsico — disse Mohammad-Nabi Mousavifard, líder das orações de sexta-feira na cidade iraniana de Ahvaz. As homenagens fúnebres do ex-líder supremo Ali Khamenei, morto em um ataque aéreo israelense no primeiro dia da guerra, também provocou uma nova onda de radicalização entre os setores mais conservadores. Multidões que acompanham nesta semana o cortejo do líder assassinado criticaram o governo por tentar chegar a um entendimento com o Ocidente. Na segunda-feira, Pezeshkian foi recebido na cerimônia com gritos de “morte aos traidores” e “morte aos normalizadores”. Nova onda de ataques Enquanto isso, nesta quarta-feira os EUA lançaram uma nova onda de ataques contra o Irã e revogaram uma isenção que permitia a venda do petróleo iraniano. As medidas, adotadas em resposta aos recentes ataques contra navios que transitavam por Ormuz, provocaram nova volatilidade nos mercados de energia. A televisão estatal iraniana afirmou que um dos navios atingidos foi atacado depois de ignorar advertências, mas não assumiu diretamente a responsabilidade. Ex-patinho feio: Fator Trump e nova conjuntura mundial tornam autocrática Turquia, anfitriã de cúpula, trunfo da Otan O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou anteriormente que os ataques dos Estados Unidos e o bloqueio às vendas de petróleo haviam deixado “sem efeito” o acordo provisório de paz firmado no mês passado, aumentando a preocupação de que ambos os lados abandonem as negociações para transformá-lo em um acordo permanente. O ministério acrescentou que as violações da reivindicação iraniana de controlar o Estreito de Ormuz e os contínuos ataques israelenses no Líbano também elevaram as preocupações de Teerã. Em resposta aos ataques americanos, a Guarda Revolucionária disse ter atacado instalações militares dos EUA no Bahrein e no Kuwait e derrubado um drone americano MQ-9 que, disse, tentava interferir na operação. O Kuwait informou que interceptou dois mísseis balísticos e 13 drones iranianos e afirmou que algumas linhas de transmissão de energia ficaram fora de operação após serem atingidas por estilhaços. Na manhã desta quarta-feira, Bahrein, onde está sediada a 5ª Frota da Marinha dos Estados Unidos, e Kuwait, que abriga tropas do Exército americano, emitiram alertas para mísseis. O Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, principal comando militar conjunto do Irã, classificou os ataques americanos como um “ato flagrante de agressão”, prometeu uma “resposta devastadora” e afirmou que Teerã não permitirá interferência dos EUA na administração do Estreito de Ormuz. Trump diz que acordo com o Irã está 'encerrado'; ataques no Golfo voltam a atingir navios Ainda assim, Trump demonstrou pouco interesse em retomar uma guerra em grande escala nas últimas semanas, embora as negociações de paz apresentem poucos avanços. Em Ancara, afirmou que não impediria que os negociadores continuassem dialogando, embora tenha expressado pessimismo em relação a essa estratégia. — Eles podem conversar, mas acho que estão perdendo tempo — afirmou. — Eles são lixo, são pessoas doentes, são governados por pessoas doentes e são pessoas cruéis e violentas. O fim dos ataques ao transporte marítimo comercial e a isenção concedida pelos EUA para as vendas de petróleo eram elementos centrais de um memorando de entendimento que encerrou os combates entre Estados Unidos e Irã e estabeleceu um período de 60 dias para negociar um acordo de paz mais amplo. Em conjunto, esses acontecimentos representam a ameaça mais grave ao acordo provisório de paz. Os EUA responsabilizaram o Irã pelos ataques contra a navegação comercial, enquanto Teerã sustentou que os ataques militares e a revogação da isenção violaram o entendimento firmado entre os dois países. “A era da intimidação e da extorsão acabou”, escreveu o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, no X. “Isso não leva a lugar nenhum. Não vamos nos curvar”. (Com Bloomberg)
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