Distrito de Arte e Cultura da Lapa: entenda projeto que vai transformar entorno da Escadaria Selarón em boulevard
16h ago
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Queixa de moradores e visitantes, o cenário de abandono da Lapa parece estar com o dias contados. Nesta sexta-feira, a Prefeitura do Rio iniciou as obras para a implantação do Boulevard Selarón, cuja proposta é revitalizar o entorno da Escadaria Selarón, a fim de melhorar a circulação pelo local. A intervenção integra o Distrito de Arte e Cultura da Lapa, projeto permanente instituído pelo decreto municipal nº 58251, de 2 de julho de 2026, para fortalecimento articulado de diferentes setores na região: patrimônio material e imaterial, produção artística e cultural, vocação para o turismo, programação noturna, empreendedorismo, inovação, economia, paisagem urbana, mobilidade e ocupação qualificada do espaço público. Apac Bossa Nova: decreto que tomba imóveis e limita construções em Ipanema e Leblon gera debate Mural do Tettrem em São Gonçalo: após influenciador ter homenagem removida, outro bairro deve receber painel Projeto prevê criação do Boulevard Selarón Divulgação O pontapé inicial foi dado no âmbito da transformação urbana, com o boulervard que leva o nome do chileno Jorge Selarón (1947 - 2013), artista que também batiza a escadaria que é um dos pontos turísticos mais badalados do Rio. Orçadas em R$ 1,7 milhão, as obras, a serem executadas pela Secretaria municipal de Infraestrutura, abrangerá um perímetro de cerca de 2 mil metros quadrados nas ruas Joaquim Silva, Teotônio Regadas e Visconde de Maranguape. Entre as intervenções previstas estão pavimentação, ajustes nas calçadas e a modernização das redes de infraestrutura urbana. A expectativa da prefeitura é que a intervenção seja concluída até o fim do ano. Distrito de Arte e Cultura da Lapa Editoria de Arte As linhas da Copa: looks de crochê são tendência entre famosas e torcedoras da seleção brasileira A Rua Visconde de Maranguape, próximo à sala Cecília Meireles, ganhará uma baia para embarque e desembarque de ônibus e vans de turismo. Na Rua Joaquim Silva, bem em frente à escadaria, a calçada será alargada, privilegiando os pedestres movimentam a área ao longo de todo o dia. A Rua Teotônio Regadas terá a pista elevada ao mesmo nível das calçadas. A ideia é priorizar deslocamentos a pé, além de ampliar a acessibilidade. A intervenção se inicia após frequentadores criticarem a precarização da região. Como mostrou O GLOBO em maio, turistas chamaram a atenção para o mau cheiro, a falta de limpeza, o casario abandonado, a concentração de moradores em situação de rua, calçadas esburacadas, com pedras portuguesas soltas, além de diversos estabelecimentos fechados, nas proximidades dos Arcos. Junto aos Arcos da Lapa, muita sujeira Márcia Foletto Ocupação qualificada e integração com demais bairros De acordo com o decreto, a requalificação permanente da região é uma estratégia que visa a ampliar a presença de artistas, galerias, ateliês, museus, centros culturais, livrarias, teatros, residências artísticas, empreendimentos da economia criativa e atividades culturais. Destaca ainda que a "Lapa constitui um dos principais destinos culturais do Brasil e um dos espaços urbanos mais reconhecidos internacionalmente como expressão da música, da boemia, da diversidade e da criatividade cariocas, desempenhando papel estratégico na projeção da imagem do Rio de Janeiro no cenário nacional e internacional". A política pública almeja ainda, segundo o texto, incentivar a recuperação, conservação e ocupação qualificada dos imóveis de interesse histórico e cultural; ampliar a permanência de moradores, trabalhadores e visitantes no território; incentivar programação artística permanente, incluindo iniciativas de arte pública e arte urbana, como murais e esculturas; e realizar melhorias urbanísticas, paisagísticas, ambientais e de acessibilidade; promover a integração física, cultural e turística entre a Lapa, Glória, Santa Teresa, Rua do Senado, Passeio Público e demais bairros da região central. Trem de Prata: quem diria que a Leopoldina está acabada? O Distrito de Arte e Cultura da Lapa será coordenado pela Secretaria municipal de Cultura, em articulação com as secretarias de Conservação, de Desenvolvimento Econômico e de Infraestrutura; a Subprefeitura do Centro; a CET-Rio; e demais órgãos e entidades municipais competentes. A iniciativa poderá ter integração com programas como Reviver Centro, Reviver Cultural e Reviver Patrimônio Pró-APAC. Os próximos passos do projeto devem ser definidos em até 60 dias, prazo que o Poder Executivo terá para regulamentá-lo, definindo a delimitação territorial do Distrito; a composição do Comitê Gestor, de caráter consultivo e propositivo; o plano estratégico; as diretrizes do Circuito Cultural da Lapa; os mecanismos de monitoramento e avaliação; e as formas de integração com os programas municipais de recuperação urbana, preservação do patrimônio e economia criativa. 'Passeio Público é mais urgente' Conhecedor do bairro e criador de dois ícones cultural no local, o Circo Voador e a Fundição Progresso, o ator e produtor de eventos Perfeito Fortuna se diz otimista com o projeto e faz sugestões para que a iniciativa proporcione maior fluxo de pessoas na região. — Acho maravilhoso o poder público se interessar pela Lapa. A rua que dá acesso à Escadaria Selarón, a Joaquim Silva, por exemplo, é um horror. Com a revitalização, espera-se que melhore a conexão com os Arcos da Lapa, onde sugiro que se faça uma parada de bonde, o que vai povoar aquela área. Mais gente andando significa mais segurança. Dali também, as pessoas podem pegar o bonde e seguir até Santa Teresa. Isso seria genial. A Rua dos Arcos, onde fica a Fundição, também é complicada. Há dois terrenos baldios enormes da Eletrobrás, onde se reúnem usuários de drogas, gerando insegurança. Se a prefeitura fizesse um parque ali, cumpriria melhor a função da via de conectar os Arcos à Rua do Lavradio, que se tornou um polo gastronômico e de antiguidades — elencou. Em entrevista ao GLOBO, o secretário municipal de Cultura, Lucas Padilha, disse que a apresentará um plano para dar uma nova destinação aos dois terrenos sem ocupação na Rua dos Arcos, sem dar detalhes. — A Lapa, para ter cada vez mais a vocação de polo de arte e cultura, precisa de intervenções urbanas, como a que começamos hoje (sexta-feira). Mas não somente. Esta é uma política híbrida, de urbanismo com cultura, trazendo uma programação de arte, como festivais. A ideia é adensar a ocupação artístico-cultural no entorno da Escadaria Selarón — destacou Padilha. Com a criação do Distrito, a prefeitura expande para a Lapa o projeto Reviver Cultural. Por meio desse programa, a prefeitura oferece incentivos financeiros para que projetos culturais ocupem imóveis vazios. — Nossas equipes estão na rua visitando imóveis públicos e privados que podem ser objeto de aluguel para negócios de cultura, galerias de arte, escolas de música, ateliês, que podem ser incentivados pela prefeitura. A ideia é abrir oportunidade para quem não está no Centro vir para o Centro, para projetos e iniciativas da periferia e da Zona Sul, por exemplo, que olhem para a Lapa e falem "eu quero estar aqui, eu quero abrir minha galeria de arte aqui, eu quero abrir minha escola de teatro aqui, eu quero abrir minha escola de música aqui". Isso aconteceu na região do Arco do Teles de forma bem-sucedida e vai acontecer ainda mais na Lapa, tenho certeza — afirmou o secretário de Cultura. — Fora os incentivos o Reviver Centro, para a construção de imóveis novos de habitação e retrofit no Centro, incluindo a Lapa. Daqui a dois, cinco anos, a Lapa vai ser ainda mais do que já é hoje, um símbolo da cultura brasileira. Passeio Público: grades inteiras e também 'setas' são furtadas Júlia Aguiar / Agência O Globo Arquiteto e historiador que pesquisa sobre o Rio de Janeiro, Nireu Cavalcanti considera que o projeto deveria ter começada pelo passeio público, parque próximo à Cinelândia. — A maior urgência com relação à Lapa é o Passeio Público, o primeiro parque público do Brasil, que está com monumentos degradados. No ano passado, roubaram o busto do escritor, que tinha uma placa lindíssima, em alto relevado, e até hoje não repuseram. Além disso, o que era jardim virou num grande terreno baldio. Então, tem que haver um esforço para o replantio. Próximo dali, outra prioridade é o antigo prédio do Automóvel Club, que é tombado e está abandonado há anos. Tem que reformar e transformar em biblioteca — sugeriu. Em março, a prefeitura anunciou a assinatura do acordo de cessão do prédio do antigo Automóvel Clube do Brasil, na Rua do Passeio, na Cinelândia, para a criação do Museu do Petróleo e Novas Energias. O espaço será gerido pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás e Biocombustíveis (IBP), assumindo a operação de atividades culturais no Passeio Público. Segundo Lucas Padilha, atualmente o imóvel passa por um processo de restauro. — Para o Passeio Público, temos uma projeto de restauro dos monumentos do Mestre Valentim, o grande escultor do período colonial brasileiro, e gradil, além da ocupação cultural pelo museu — disse o secretário. — A Feira da Glória ajudou muito a desenvolver a região da Praça Paris. Entendemos que isso vai avançar rumo ao Passeio Público e à Cinelândia. Então tem uma integração nesses corredores culturais todos. Engajamento de moradores e visitantes Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Andrea Borde considera fundamental um esforço das autoridades para engajar moradores e visitantes na preservação da região. — Eu acho importante ter um Distrito de Cultura e Arte da Lapa, porque é uma área de conexão do Centro com a Zona Sul e, por meio das ruas Riachuelo e Mem de Sá, com a Zona Norte, e atividade cultural impressionante. Mas o patrimônio não pode ser só uma visão institucional. Há que se considerar a participação da população local, com muito diálogo, porque, apesar dos instrumentos legais, quem preserva na prática são as pessoas. Percebo que há uma ênfase muito grande em atrair o capital, mas se você atrai negócios e as pessoas não comparecem, o projeto não vinga. Então, tem que conectar a comunidade ao distrito, senão ele não vai acontecer — analisa. A especialista chama a atenção ainda para a importância da participação das universidades: — A quantidade de material sobre a Lapa produzido nas universidades, como na FAU, pouparia tempo de quem está fazendo os diagnósticos da área.
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