Quase nove meses após a assinatura de um cessar-fogo entre Israel e Hamas, Gaza continua mergulhada em uma crise humanitária profunda. Mais de 1,9 milhão de pessoas permanecem deslocadas, milhares de corpos seguem sob os escombros e crianças são mordidas por ratos em acampamentos improvisados, segundo a rede CNN. Enquanto isso, negociações diplomáticas envolvendo Estados Unidos, Irã e outros atores regionais avançam sem incluir o futuro do enclave palestino, alimentando entre moradores a sensação de que Gaza foi esquecida pelo mundo. Contexto: Mil dias depois dos ataques de 7 de Outubro, israelenses homenageiam vítimas e exigem comissão de inquérito Entenda: Ataques israelenses mataram mais de mil pessoas em Gaza desde cessar-fogo mediado pelos EUA — Todo mundo esqueceu Gaza e sua tragédia — lamenta Ahmed Jamali, palestino de 53 anos que vive em um campo de deslocados na cidade de Gaza. Desde o conflito iniciado em 28 de fevereiro entre EUA, Israel e Irã, diz ele, a atenção internacional se voltou para outras frentes da crise no Oriente Médio. — Israel faz o que quer: mata, destrói e ocupa Gaza, e ninguém no mundo move um dedo — afirma. Initial plugin text A guerra em Gaza começou após os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. A ofensiva israelense que se seguiu já deixou mais de 73 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde do território palestino, controlado pelo Hamas. As estatísticas são consideradas confiáveis pela ONU. Em 11 de outubro de 2025, Israel e Hamas assinaram um acordo de cessar-fogo em duas fases, após dois anos de guerra e bloqueio. O plano previa a retirada gradual das tropas israelenses, o desarmamento completo do Hamas, a criação de uma força internacional de segurança e a formação de uma nova autoridade palestina para governar a Faixa de Gaza. Ajuda humanitária: Itália anuncia libertação de ativistas de flotilha retida na Líbia com destino a Gaza Mais de oito meses depois, porém, poucas dessas medidas avançaram. O acordo que não saiu do papel Em maio, Nikolay Mladenov, ex-funcionário da ONU encarregado de acompanhar a implementação do acordo, alertou para um "status quo perigoso" em Gaza. Palestinos deslocados passam por prédios destruídos e abrigos improvisados perto do campo de refugiados de al-Shati, a oeste da cidade de Gaza, em 1º de julho de 2026 OMAR AL-QATTAA / AFP Na semana passada, a chamada Junta de Paz, criada para impulsionar o plano, anunciou dois dias de reuniões "altamente produtivas" no Chipre. Ainda assim, não há cronograma para a instalação de um comitê tecnocrático palestino que substituiria o Hamas na administração do território. A força internacional prevista no acordo também nunca foi criada. Enquanto isso, Israel ampliou sua presença militar em Gaza. No mês passado, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou ter ordenado que as Forças Armadas assumissem o controle de cerca de 70% do território e sugeriu que essa área poderia aumentar. Veja: Mortes de palestinos em Gaza ultrapassam 73 mil após novos ataques de Israel O Hamas, por sua vez, se reorganizou, recusou-se a entregar suas armas e manteve sua influência sobre o território. O resultado é que a violência continua. Segundo o Ministério da Saúde palestino, ao menos 1.059 pessoas morreram e outras 3.429 ficaram feridas em ataques israelenses desde a assinatura do cessar-fogo. Dados compilados pela CNN mostram que, em média, uma criança é morta por dia em Gaza desde outubro. Alerta: ONU diz que plano israelense de ampliar o controle sobre Gaza significa que 'mais crianças sofrerão' Em junho, uma comissão independente da ONU concluiu que Israel continua cometendo genocídio contra os palestinos ao atingir deliberadamente crianças em Gaza. O governo israelense rejeitou a acusação e classificou o relatório como "uma difamação política disfarçada de documento da ONU". Gaza fora das prioridades A sensação de abandono entre os moradores é reforçada pelos recentes movimentos diplomáticos na região. Inicialmente, o Irã defendia que o acordo firmado com os EUA para encerrar a guerra entre os dois países incluísse todo o Oriente Médio. O memorando de entendimento assinado em junho entre Washington e Teerã contempla o fim das hostilidades entre Israel e o Hezbollah no Líbano — uma prioridade para o governo iraniano —, no entanto, não prevê qualquer mecanismo para resolver a crise palestina. — Isso reflete uma perda do valor estratégico do Hamas aos olhos do Irã — afirma Hugh Lovatt, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR). O especialista militar israelense Eado Hecht vai além. — Os iranianos não estão realmente preocupados com Gaza. O Hamas era um aliado, não um peão do Irã, e os traiu. Eles não queriam uma guerra em 2023 — observa. Relembre: Irã suspende negociações com EUA e afirma que cessar-fogo inclui Líbano e Gaza; Trump tenta evitar ofensiva contra Beirute Um diplomata ocidental ouvido pela AFP avalia que o enclave foi deixado de lado não porque o conflito tenha terminado, mas porque ainda não existe uma solução política viável para o pós-guerra. Enquanto isso, negociações discretas continuam ocorrendo em Cairo, com participação de representantes palestinos, integrantes da Junta de Paz apoiada pelo presidente americano, Donald Trump, e mediadores de países como Catar e Turquia. Sob condição de anonimato, uma fonte envolvida nas negociações afirmou que "estão sendo feitos enormes esforços, visitas e tentativas para verificar se isso vai funcionar". Crianças mordidas por ratos Enquanto líderes negociam, a realidade em Gaza continua marcada por condições extremas. Mais de 1,9 milhão de pessoas — praticamente toda a população do território — permanecem deslocadas, segundo a ONU. Muitas delas foram obrigadas a fugir diversas vezes. Premier israelense: Netanyahu diz ter ordenado avanço do Exército de Israel para assumir controle de 70% da Faixa de Gaza Meses após o cessar-fogo, milhares continuam vivendo em barracas improvisadas e sem ventilação adequada. No fim de maio, a ONU alertou para a rápida disseminação de erupções cutâneas e infecções parasitárias. Segundo relatório recente, esses problemas já afetam mais de 80% das áreas de deslocamento. — Você pode ser bombardeado a qualquer momento e em qualquer lugar. Não existe um cessar-fogo de verdade aqui — afirma Sally Saleh, trabalhadora humanitária deslocada em Deir al-Balah e chefe de emergências da organização britânica Medical Aid for Palestinians (MAP) em Gaza. Uma criança palestina está de pé sobre os escombros de um prédio destruído perto do campo de refugiados de al-Shati, a oeste da cidade de Gaza, em 1º de julho de 2026 OMAR AL-QATTAA / AFP Segundo ela, ratos, baratas e doninhas circulam livremente pelos acampamentos, rasgando lonas e atacando pessoas durante a noite. — Conversamos com pais cujos filhos foram mordidos por ratos e que vivem aterrorizados com a possibilidade de isso acontecer novamente — relata. Idosos e pessoas com deficiência estão entre os mais vulneráveis. Initial plugin text Em algumas áreas, moradores passaram a cavar fossas improvisadas devido à falta de instalações sanitárias, aumentando os riscos de contaminação do solo e da água. Os ratos também perfuram embalagens de ajuda humanitária, obrigando famílias a descartar parte dos escassos estoques de arroz e farinha. Algumas pessoas passaram a pendurar recipientes de comida no teto das barracas para protegê-los. Disputa sobre a ajuda humanitária O governo israelense afirma que a situação está sob controle. No mês passado, anunciou uma campanha de combate a pragas em parceria com a ONU e informou, por meio do órgão responsável pela coordenação da ajuda humanitária em Gaza, que aproximadamente 600 caminhões entram diariamente no território — o mínimo previsto no acordo de cessar-fogo. "A situação humanitária em Gaza é estável, sustentada por um fluxo contínuo e consistente de ajuda", afirmou o órgão em publicação nas redes sociais. Entenda: Israel expulsa ativistas estrangeiros de flotilha para Gaza após indignação internacional por vídeo divulgado por ministro Organizações humanitárias contestam essa avaliação. Segundo elas, restrições à entrada de geradores, peças de reposição e equipamentos essenciais continuam dificultando a reconstrução e o funcionamento de serviços básicos. Trabalhadores humanitários responsáveis pela distribuição de ajuda também seguem sendo mortos nos confrontos. De acordo com Saleh, algumas organizações já precisaram reduzir operações fundamentais, incluindo o fornecimento de água potável. Corpos ainda sob os escombros A devastação também permanece visível nas ruas. A expansão das áreas controladas pelo Exército israelense continua provocando novas ondas de deslocamento. Em muitos locais, famílias encontram montanhas de lixo, esgoto a céu aberto e enormes áreas cobertas por destroços. Somente em Gaza, cerca de 25 milhões de toneladas de escombros permanecem acumuladas, segundo autoridades locais. A entrada limitada de equipamentos para remoção de resíduos dificulta a limpeza. Em alguns casos, trabalhadores humanitários recorrem a tratores e até carroças puxadas por burros para recolher lixo. — Lavo meus sapatos todos os dias por causa do esgoto. Gaza agora é apenas um lugar onde nenhuma forma de vida consegue existir — afirma Saleh. Assista: Ministro israelense causa indignação ao divulgar vídeo de ativistas de flotilha a Gaza ajoelhados e com mãos amarradas Mas o símbolo mais contundente da guerra permanece enterrado sob os escombros. Desde a assinatura do cessar-fogo, autoridades palestinas recuperaram 784 corpos. Outros 7.500 desaparecidos continuam soterrados, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. — Os restos mortais precisam ser tratados com dignidade — ressalta Pat Griffiths, porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Jerusalém. Segundo ele, quanto mais tempo os corpos permanecem enterrados, maior o risco de perda de evidências que poderiam permitir sua identificação, como impressões digitais, registros dentários, cicatrizes e marcas de nascença. Uma geração marcada pela guerra Em Deir al-Balah, Karam, de 14 anos, tenta manter alguma rotina enquanto conduz uma bola de futebol por um caminho cercado de destruição. — Meu sonho era ser jogador de futebol. Eu costumava jogar com meus amigos na rua — conta. Ao redor dele, antigas áreas agrícolas deram lugar a terras queimadas, pomares carbonizados e montanhas de concreto destruído. — A vida antes da guerra era bonita. Mas agora não existe mais vida. Entrevista: 'Se nos esquecermos de Gaza, abandonaremos parte de nós mesmos', diz escritor Rachid Benzine Os impactos da guerra vão além da destruição física. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego em Gaza chegou a 85,1% em maio. Antes do conflito, era de 45%. Saleh afirma que os efeitos psicológicos são evidentes entre as crianças. — Vi crianças simulando funerais e enterros durante as brincadeiras. Para o escritor palestino Yahya Alhamarna, de 24 anos, deslocado em Gaza, preservar a memória tornou-se uma forma de resistir. Ele cita como inspiração o professor e escritor palestino Refaat Alareer, morto em um ataque israelense em dezembro de 2023. — Ele representava o pensamento, a cultura e o poder das palavras — diz. Apesar da devastação, Alhamarna vê na persistência dos moradores uma forma de sobrevivência. — As pessoas continuam escrevendo, falando e mantendo a esperança. E isso, por si só, já é uma forma de resistência. (Com AFP)
Comments
Sign in to join the conversation.
No comments yet. Be the first.