Copa do Mundo e a irreverência do Pasquim: jornal independente acompanhou o primeiro jejum brasileiro em Mundiais
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Extra OnlineCopa do Mundo e a irreverência do Pasquim: jornal independente acompanhou o primeiro jejum brasileiro em Mundiaisglobo.comA edição de número 465 do Pasquim trouxe, na capa, uma bomba dentro do logotipo oficial da Copa do Mundo da Argentina de 1978. Sem medo do regime ditatorial brasileiro e da censura tupiniquim, corajosamente os jornalistas do semanário independente tentaram traduzir um pouco da indignação geral com aquele Mundial, sediado, também, por um país sul-americano comandado por militares. Ao longo de toda a edição, o Pasquim zombou e denunciou o absurdo que o torneio representava. Mais uma vez, a logo foi usada como símbolo nas charges. Um mundial “enfiado na goela” ou “preso na garganta” como um grito privado de liberdade. Um mundial cercado pela repressão, que parecia ter esses mesmos repressores em campo. Nas páginas especiais sobre o torneio, a manchete dizia "No me tortures, por favor" e um texto explicava o contexto daquela Copa do Mundo. Conheça o 'Palpiteiros': Mais que um bolão, o campeonato de palpites da Copa do Mundo Tabela da Copa: Acompanhe os resultados de todos os jogos e a classificação — Apesar do Edinho na lateral esquerda, apesar do excesso de "literatura" de Coutinho e do tanto que ele está atrapalhando os nossos onze melhores craques, o brasileiro está cheio de esperanças no futebol de Reinaldo. Tem que aparecer um gênio em cada Copa, um Rei, um possesso, uma divindade. Por isso, ninguém aqui ousou falar em boicote à Copa da Argentina. No Brasil, não há clima para isso! — dizia o periódico de forma ácida. Em seguida, o jornalista Ricardo Acciaris, que estava na Argentina, escreveu um relato sobre a situação do país, que veria a própria seleção campeã ao final do torneio. O Brasil saiu apenas como "campeão moral" após acusações de manipulações do regime ditatorial argentino na competição. Ao centro, a Capa do Pasquim com referência à Copa do Mundo de 1978; A edição também trouxe charges zombando da competição Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Páginas especiais do Pasquim sobre a Copa do Mundo de 1978 Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Essa acidez desprovida de qualquer medo era a marca do Pasquim. Um jornal independente que nasceu com a intenção de ser um semanário humorístico, mas que contou com a participação da nata jornalística e cultural brasileira — como Henfil, Ivan Lessa, Tarso de Castro, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Sérgio Cabral, Chico Buarque e outros tantos — num período em que pouco se podia dizer. E toda essa coragem e irreverência acompanharam, justamente, o primeiro jejum de títulos em Copas do Mundo da seleção brasileira, entre 1970 e 1994. O semanário existiu entre 1969 e 1991, portanto, cobriu a conquista de 1970 e todas as frustrações entre 1974 e 1990. Após o tri de 70, no México, o meia Gerson foi capa da edição 55 do jornal — fumando ainda por cima. A manchete: Gerson Macho. Nas entrelinhas, a história ficava um pouco mais clara: sensacional entrevista com Gerson e, abaixo, Tarso (de Castro) revela quem é o Macho. Capa do Pasquim com entrevista de Gerson Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Trechos da entrevista com Gerson, no Pasquim Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Seguindo a marca registrada do seminário, a entrevista com o campeão mundial não teve nenhum tipo de pudor. Gerson afirmou que fumava antes das partidas, equiparou Tostão a Pelé e comentou, inclusive, a demissão de Saldanha antes da Copa do Mundo. Para ele, o técnico que colocou a seleção no Mundial foi tão campeão quanto Zagallo, que comandou a equipe no torneio. Essas conversas, que tiravam de tudo dos entrevistados, nasciam de um ambiente nada usual. — Já começamos inovando: levando uísque para nosso consumo e botando o entrevistado na roda — revelou o jornalista e cartunista Jaguar, um dos fundadores do Pasquim, em relato publicado no acervo do jornal na Biblioteca Nacional. Whatsapp: Receba as notícias da Copa em primeira mão no seu celular Newsletter 'Hoje na Copa': Receba sempre pela manhã as notícias mais importantes do dia Passada a euforia da conquista do tricampeonato, o Pasquim usou de toda a sua irreverência — e muitos textos regados a uísque — para criticar a seleção e todos os personagens das frustrações seguintes. Em 1974, depois de ser eliminada pelo carrossel holandês, de Johan Cruyff, a seleção de Zagallo foi vítima da crítica “pasquiniana”. “Deu chabu”, era a manchete. Um Zagallo confuso, com fumaça saindo pelos ouvidos, acompanhava o título provocativo. Zagallo foi capa no Pasquim após eliminação de 1974 Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Em 82, a manchete “Em busca do tetra" foi destaque na capa da edição 676 que, nas páginas principais, trazia uma entrevista com o ator, escritor e jornalista Fausto Wolff. "Sinto muito, mas vou torcer contra”, revelava o jornalista, que não estava nem um pouco entusiasmado com aquela Copa do Mundo. — Eu quero que o meu povo seja respeitado, que procure dentro de si o fim que dá significado à sua existência e não num jogo de futebol — afirmou Wolff. A seleção de Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Leandro não empolgaria mesmo Wolff. A equipe sucumbiu para a Itália nas quartas de final. Os craques não escaparam do Pasquim: “Bye Bye Brasil” foi a capa da edição 680. A eliminação de 86 foi ainda mais esculhambada: “a babaquice continua”, dizia a manchete da edição 885, com um Telê Santana chorão em destaque. Telê Santana foi destaque na capa da eliminação do Brasil na Copa de 1986 Reprodução/Acervo da Biblioteca Nacional Resistência O Pasquim, criado em 69, pouco depois do AI-5 endurecer a ditadura brasileira, resistiu à censura e sobreviveu até a abertura política e redemocratização brasileira, em 1991. Os jornalistas chegaram a ser presos e o periódico teve que inventar uma gripe para justificar a falta de conteúdo. Além disso, ao longo da existência do jornal, muitas edições atrasavam porque precisavam ser enviadas para censores em Brasília. Como demoravam para voltar ao Rio de Janeiro, sede principal do semanário, eram publicadas com atraso. — Quando tinham que mandar para Brasília, eles faziam três vezes o que diziam pro jornal — disse Fernando Coelho dos Santos em entrevista ao GLOBO. O corretor de seguros aposentado, de 76 anos, foi um dos principais responsáveis pela digitalização integral do acervo do jornal no site da Biblioteca Nacional. Ele se refere ao método criado pelos jornalistas, que consistia em mandar uma edição três vezes maior, muitas vezes com conteúdos aleatórios, para dificultar o trabalho dos censores. Fernando se envolveu ainda mais com o Pasquim depois de criar o primeiro Salão Brasileiro de Desenho de Humor e História em Quadrinhos, na década de 70. Na época, já fã do jornal, conheceu Ziraldo, Jaguar e Millôr Fernandes, fundadores da publicação. A partir dali, o semanário se tornou mais uma das paixões da sua vida. Ele conta que, na década de 70, para burlar a censura, muitas das capas das mulheres mais sexys do Brasil traziam palavras e expressões pontuais, que tentavam dizer alguma coisa em meio ao escárnio. — Eles iam botando palavrinha aqui, ali, e conseguiam fazer colocações. Essas capas das mulheres foram uma coisa... Era machista, porque, naquela época, tudo era um pouco machista — ressaltou o corretor. A crítica morreu? O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 após derrota para Noruega, no último domingo. O jejum, agora, será ainda maior do que aquele visto pelos jornalistas do Pasquim: no mínimo 28 anos, com seis quedas seguidas para o primeiro adversário europeu em mata-mata, frustrações e a maior goleada da história sofrida pela seleção. Nesse contexto, Fernando Coelho não acredita que a seleção de hoje aguentaria as críticas pasquinianas. — Olha, tem uns personagens que iam sofrer, viu? — disse o corretor de seguros aposentado. Crítico ao modelo de transmissão da Copa do Mundo atual, Paulo Markun, ex-diretor da franquia do Pasquim de São Paulo, também não vê mais muito espaço para crítica no jornalismo esportivo de hoje. — Eu tenho quatro netas: duas de 24 anos, uma de 12, outra de 14. Nenhuma das quatro usa jornalismo para coisa nenhuma. Nada, zero. Jornalismo na TV, no rádio, na internet, elas se informam de outra maneira, num outro caminho — disse. Hoje ele não acompanha a Copa do Mundo porque não se identifica com a cobertura na TV e com as transmissões, mas não coloca um ponto final na história do jornalismo esportivo. — Como eu não sou um aficionado de futebol, eu não vejo jogos nem do Brasil, nem de Portugal, nem nada. Mas eu penso o seguinte, será que isso é uma tendência irreversível que vai ter uma durabilidade ou é só uma onda passageira e daqui a pouco vai surgir uma outra coisa? Preciso ver o que vai acontecer daqui para a próxima Copa — concluiu Markun. Para fechar esta reportagem, num exercício lúdico e na tentativa de manter a crítica (pertinente) viva, perguntamos a repórteres e colunistas do GLOBO como eles definiriam a campanha da seleção brasileira neste Mundial caso trabalhassem na redação do Pasquim. Rafael Oliveira, repórter do GLOBO (enviado especial no Mundial) Barco viking derruba canoa brasileira: de camisa vermelha, Haaland marca dois gols e acaba com sonho da CBF de ganhar uma Copa só contratando Carlo Ancelotti. Agora, entidade tem quatro anos para funcionar de verdade e focar no que realmente importa: formar talentos para o técnico italiano ter material de trabalho de qualidade em mãos. Ana Thaís Matos, colunista covidada do GLOBO e comentarista da TV Globo Brasil, a pior notícia é sempre a próxima: com estrelas apagadas e uma atuação apática, seleção de Neymar fracassou mais uma vez e está fora de uma Copa do Mundo. Carlo Ancelotti, que tinha sido bem importante na forma como leu os jogos e as necessidades do Brasil até aqui, errou na escalação e nas trocas durante o jogo. Neymar, aliás, poderia ter sido herói, marcou um gol de pênalti no fim, mas, em meio a ironias e provações, se despediu da Copa apenas com bons números individuais. Marcelo Barreto, colunista do GLOBO e apresentador do Redação SporTV Brasil: &$7! Abaixo os tabus! O Pasquim usou essas duas manchetes para uma entrevista marcante (ou, para usar a definição preferida desta Copa, históóóórica!!!!) de Leila Diniz. E achei que ambas se encaixam numa análise da eliminação da seleção. Na capa, os caracteres que substituem um palavrão se referiam ao fato de que a atriz e ícone do feminismo não tinha o menor problema para xingar — algo que, para as mulheres da época, ainda era tabu. E foi justamente essa a expressão usada nas páginas internas. Depois da derrota para a Noruega, mais uma contra o primeiro europeu que o Brasil enfrentava numa fase eliminatória, só mesmo um bom "&$7!" para soltar a raiva que cerca a seleção, a CBF, o futebol brasileiro e sua crise interminável (que, como meu orientador Ronaldo Helal ouviu de um integrante da banca em sua defesa de doutorado, nem deveria ser chamada de crise, já que a impressão que a gente tem é de que foi sempre assim). Ainda estamos presos, na sociedade e no futebol, ao que Leila queria derrubar. Tabu é assunto proibido, algo que a gente evita discutir, como, por exemplo, um projeto de seleção contínuo, transparente, integrado com as bases e alinhado com os clubes. Bem mais difícil do que ter certeza de que Vini deveria ter batido um pênalti, que Neymar não deveria ter entrado, que, se fosse um técnico brasileiro, blábláblá... Sequência sem título, essa que para o torcedor brasileiro vai chegar a 28 anos, é escrita. E é difícil acabar com uma sem, no mínimo, confrontar o outro. Não sabemos o que será do próximo ciclo, muito menos da seleção brasileira, mas enfim... 30 neles!
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