Autor de chacina em cinema de SP deixa 'vendedores com medo' ao frequentar shopping de Salvador após deixar a cadeia
11h agopt
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Livre há dois anos, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, hoje com 51 anos, passou a frequentar regularmente o Shopping Barra, um dos mais tradicionais de Salvador. Condenado inicialmente a 120 anos de prisão por entrar com uma submetralhadora numa sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, matando três pessoas e ferindo outras nove, o atirador foi solto em 2024 pela Justiça da Bahia. Atualmente, vem batendo ponto no centro comercial soteropolitano, onde circula por cafés, livrarias e até assiste a filmes em salas de cinema similares àquela em que cometeu a chacina. 'Dentro da escuridão': Condenado por massacre em shopping no Morumbi vira escritor e lança obra sobre crime que ele mesmo cometeu ‘Era zero afeto’: Em documentário de duas horas, Suzane von Richthofen relembra crime e alega ‘abismo’ para os pais A presença de Mateus começou a preocupar frequentadores, que passaram a fotografá-lo, compartilhando as imagens em grupos de WhatsApp. Um dos principais espaços do gênero da Bahia, o Shopping Barra tem 315 lojas e um complexo de cinema com oito salas, três delas VIPs. Localizado numa das regiões mais valorizadas e turísticas da capital, o local recebe cerca de 50 mil visitantes por dia. Mateus vem sendo fotografo por frequentadores de shopping em Salvador Reprodução Mateus mora sozinho a poucos quarteirões do local. “Quando eu o vi pela primeira vez, fiquei em dúvida, porque ele está bem diferente. Mas logo a informação se espalhou no shopping, deixando os vendedores com medo”, narra a comerciante Janaína Chaseliov, de 34 anos. A liberdade de Mateus é o capítulo mais recente de uma novela jurídica iniciada em 1999, quando ele cometeu o crime durante uma sessão do filme "Clube da luta". A caminho do Tribunal do Júri, a defesa tentou provar que ele era inimputável — ou seja, que um transtorno mental grave o impedia de compreender a gravidade de seus atos e que, sendo assim, ele não poderia responder criminalmente pelo massacre. A tese, entretanto, não emplacou. A Justiça paulista instaurou um incidente de insanidade mental e nomeou uma junta formada pelos psiquiatras Sérgio Paulo Rigonatti, Antônio Carlos Justino Cabral e Moacyr Alexandro Rosa, além da psicóloga Maria Adelaide de Freitas Caires. Após meses de entrevistas, testes psicológicos e avaliações psiquiátricas, os quatro foram taxativos: apesar de apresentar uma série de transtornos mentais, incluindo a psicopatia, Mateus era imputável e tinha plena capacidade de compreender o caráter ilícito de seus atos e de agir de acordo com esse entendimento. O principal argumento dos peritos era que o massacre havia sido planejado com uma riqueza de detalhes incompatível com a versão de que Mateus não sabia o que estava fazendo. Ele comprou a submetralhadora por R$ 5 mil, providenciou munição, consumiu cocaína, deixou o apartamento onde morava e hospedou-se num hotel para dificultar seu rastreamento. “Poderia ser na Câmara dos Deputados. Mas lá tem detector de metais. Por isso escolhi o shopping”, declarou durante o inquérito. Para a junta médica, essa sequência de decisões demonstrava que o assassino era capaz de planejar, antecipar as consequências e controlar a própria conduta. “Ele é perverso e tão frio que me deixava assustado”, declara o psiquiatra José Cássio Pitta, médico particular de Mateus na época do crime. Levado ao Tribunal do Júri em 2003, ele foi considerado plenamente responsável pelo massacre, condenado e enviado para cumprir pena em Tremembé. Sala de cinema onde estudante matou três pessoas, no Morumbi Shopping, em 1999 Helcio Toth Para ficar perto dos pais, Mateus pediu transferência de Tremembé para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, em 2004. Na nova casa penal, preso no regime fechado, ele tentou matar o traficante Francisco Vidal Lopes, de 58 anos, com golpes de tesoura na cabeça. Por causa dessa tentativa de homicídio, Mateus seria submetido novamente ao Tribunal do Júri. Sua nova banca de advogados, liderada por Vivaldo Amaral Adaes, voltou a alegar que ele era inimputável, levando a um novo incidente de insanidade mental. Ao longo do novo processo, diferentes especialistas baianos levantaram hipóteses de transtorno de personalidade esquizoide, transtorno psicótico, esquizofrenia e transtorno delirante. Nenhum dos documentos localizados até agora, porém, registra uma conclusão pericial categórica de que Mateus fosse incapaz de compreender o crime ou de se autodeterminar. A reviravolta veio no julgamento. O Ministério Público da Bahia aderiu à tese, e acusação e defesa sustentaram juntas que Mateus era inimputável. Os jurados concordaram. O juiz Moacyr Pitta Lima Filho o absolveu impropriamente e determinou sua internação por tempo indeterminado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia, até que uma perícia atestasse a cessação de sua periculosidade. A batalha para tirar Mateus do hospital de custódia começou logo em seguida. A família e os advogados passaram a pedir sua desinternação e a defender que ele poderia continuar o tratamento fora da instituição. Diante do pedido, a Justiça determinou novas avaliações pelos profissionais da unidade de saúde. Os pareceres, porém, traçaram um retrato desfavorável. Mateus não demonstrava arrependimento genuíno pelo massacre nem empatia pelas vítimas. Numa das entrevistas feitas com a psiquiatra Denise Rocha Stefan, o assassino declarou: “Eu me arrependo, mas é aquele arrependimento egoísta porque, é claro, a pessoa vai pensar primeiro em si mesma. Eu me arrependo primeiro em relação a mim, depois em relação aos meus pais, porque não pensei neles quando fiz isso. Por fim, nos familiares das vítimas. Eu me arrependo do que fiz, mas quem está sentindo isso sou eu e minha família. Quer dizer, penso primeiro em mim porque quem está preso aqui, sofrendo, sou eu”. A submetralhadora usada na chacina em sala de cinema do Morumbi Shopping José Luiz da Conceição/Agência O GLOBO Em outra ocasião, Mateus disse que “lamenta muito” não ter esperado seis meses para cometer o massacre no shopping. “Se eu tivesse esperado, teria me formado. E com curso superior, ficaria numa cela especial e não misturado com os outros”, sustentou em entrevistas a psicólogos. Em 2024, Mateus foi definitivamente para a casa com anuência da Justiça da Bahia. Na decisão que o liberou, ficou acordado judicialmente que os pais se encarregariam de manter o tratamento psiquiátrico do paciente, principalmente administrando os remédios que o mantêm controlado. Mateus teria, inclusive, que morar com os genitores, o médico oftalmologista Deolindo Vanderlei Meira, de 87 anos, e a enfermeira Alina da Costa Meira, de 84. No entanto, a coluna apurou que o assassino mora sozinho numa quitinete em Salvador. Segundo declarações dadas à Justiça por Deolindo e Alina, Mateus costumava bater nos familiares, chegando a quebrar três costelas do pai numa luta corporal. “O Mateus só agride quem ele gosta. O próprio preso que levou a tesourada disse isso ao juiz. Os dois eram amigos”, conta o advogado Vivaldo Adaes. Tão logo Mateus foi solto, seu representante fez questão de encerrar o trabalho de defesa. “Eu tenho medo de que ele apareça armado aqui no meu escritório. Aliás, todo mundo tem esse medo. Até porque ele já havia feito uma lista de pessoas marcadas para morrer”, diz o advogado. Na tal lista, o assassino havia incluído ex-defensores, membros do júri que o condenou em São Paulo, jornalistas, colegas de cela, funcionários de penitenciárias e até médicos e psicólogos que assinaram laudos desfavoráveis. Recentemente, Adaes também viu Mateus perambulando sozinho pelo shopping. Como estava com os filhos, o advogado deu meia volta antes que o atirador o encontrasse. “Também já vi o Mateus várias vezes na bilheteria do cinema. Está acima do peso e me parece bem sombrio. Me cumprimentou normalmente. Fiquei com medo porque ele carregava uma mochila”, completa Marco Antônio Damasceno, de 50 anos, médico e ex-colega de infância do atirador na Instituto Social da Bahia (ISBA). A liberdade de Mateus contrasta com a situação de outros assassinos famosos que, décadas depois de seus crimes, continuam recolhidos por decisões judiciais baseadas no risco que ainda representariam para a sociedade. Marcelo Costa de Andrade, o Vampiro de Niterói, foi considerado inimputável e permanece há mais de 30 anos no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, no Rio de Janeiro, porque segue sendo considerado perigoso. Francisco Costa Rocha, o Chico Picadinho, cumpriu integralmente sua pena, mas foi interditado pela Justiça de São Paulo e permanece na Casa de Custódia de Taubaté por apresentar, segundo a perícia, distúrbios de personalidade e risco social iminente. Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, que tinha 16 anos quando participou dos assassinatos de Liana Friedenbach e Felipe Caffé, ainda está recluso na Unidade Experimental de Saúde, na Vila Maria, em São Paulo. A Justiça mantém sua internação compulsória por considerar que seus transtornos o tornam perigoso e que sua tendência à violência exige contenção, tratamento e avaliações periódicas antes de qualquer eventual retorno ao convívio social. A psiquiatra Hilda Morana, que examinou Mateus durante quatro meses em São Paulo, também considera que ele não deveria estar em liberdade. Segundo a profissional, o ex-estudante de Medicina é altamente inteligente, plenamente imputável e tem uma capacidade de manipulação capaz de enganar até os próprios avaliadores. Para Morana, Mateus é um “psicopata perverso”, perigoso e despreparado para o convívio em sociedade. “Ele não pode ficar na rua porque vai fazer maldade”, garante. A psiquiatra afirma ainda que Mateus tentou se passar por doente mental desde o massacre, mas não conseguiu enganar a Justiça de São Paulo. “Aí chegou em Salvador, ele queria se passar por louco e se passou. Incrível como ele enganou a Justiça baiana”, opina. Quando Mateus cometeu o massacre no Morumbi Shopping, em 1999, a lei brasileira limitava a 30 anos o tempo máximo de prisão. Portanto, se não tivesse cometido outro crime, ele chegaria a esse limite em 2029. Mas, como em 2009, já preso, ele tentou matar um companheiro de cela, essa conta mudaria. Se fosse condenado pelo novo crime, o limite de 30 anos poderia ser recalculado a partir da nova condenação, mantendo-o preso por muito mais tempo. Apesar de ter dado parecer favorável à transferência de Mateus da penitenciária para o Hospital de Custódia e Tratamento, o Ministério Público da Bahia foi contra a soltura e recorreu a instâncias superiores para tentar manter Mateus privado de liberdade. A psiquiatra Grace Adriana Lopes Conceição, que trabalhou por três anos no Hospital de Custódia e o examinou durante quase um ano, é mais uma a defender que ele não deveria estar convivendo em sociedade. Para a médica, Mateus é psicopata, e o perigo não está numa suposta esquizofrenia que o faria perder o controle sem medicação, mas numa personalidade antissocial marcada pela falta de empatia e arrependimento, inteligência, frieza e capacidade de planejamento. “O risco existe. Mateus pode voltar a cometer crimes, embora dificilmente repetisse um ataque nos mesmos moldes do massacre de 1999, justamente por ser inteligente demais”, avalia. Conceição também admite ter medo do ex-paciente. Durante as entrevistas, ela soube que Mateus mantinha a já citada lista de pessoas que pretendia matar. A médica chegou a perguntar se seu nome estava nela. Ele respondeu que não. “Se o encontrasse hoje no shopping, também sairia correndo”, assegura. Ela acredita que Mateus deveria continuar internado num ambiente protegido e monitorado, como havia recomendado no laudo. Os pais de Mateus, o Ministério Público da Bahia e o Tribunal de Justiça da Bahia foram procurados pela coluna para comentar a situação do ex-estudante de Medicina. Nenhum deles respondeu aos contatos.
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