As cartas se embaralham todos os dias — é assim que a vida acontece
21h ago
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Extra OnlineAs cartas se embaralham todos os dias — é assim que a vida aconteceglobo.comSegundo a teoria da minha avó, “as cartas se embaralham todos os dias”. Eu, que gosto de encontrar significado em tudo, demorei anos para entender o sentido dessa frase. Mais do que um conselho, é a descrição da realidade. Porque crescemos querendo exatamente o contrário. Queremos estabilidade e garantias, saber se escolhemos a profissão certa, o amor certo, o investimento certo, a fila certa do supermercado. Afinal, existe um tipo muito específico de sofrimento reservado para quem escolhe a fila errada. A vida adulta, descobri, é uma sucessão de filas erradas administradas com alguma elegância. Também queremos acreditar que certas pessoas nasceram para ganhar e outras para assistir ao jogo. Que determinadas estruturas permanecerão de pé para sempre. Só que não. As cartas se embaralham. E fazem isso numa velocidade impressionante. Vivemos uma época em que quase tudo parece sólido até deixar de ser. Uma plataforma domina o mundo e, meses depois, já estamos todos dizendo que ela perdeu relevância. Um comportamento parecia impensável e, de repente, virou tendência. Uma tecnologia muda completamente a maneira como trabalhamos antes mesmo de aprendermos a pronunciar seu nome. Romantizar exceções é uma crueldade. O mundo continua profundamente desigual e não é o tal do mérito que conta. As oportunidades continuam distribuídas de maneira profundamente injusta. O CEP ainda pesa, assim como a cor da pele. O sobrenome ainda abre ou fecha portas. Mas seria igualmente ingênuo fingir que nada muda Às vezes, não muda na velocidade como gostaríamos. Nem na direção esperada. Mas muda. Talvez fique mais evidente no futebol. Há sempre espaço para as “zebras” nos jogos. Gilberto Gil já cantava isso muito antes de os algoritmos tentarem prever nossos desejos: “Novo tempo sempre se inaugura a cada instante que você viver”. Sempre achei bonito o verso da música “Era nova” porque não promete revolução diária. Promete inauguração. E inaugurações podem ser discretas. Talvez seja isso que minha avó tenha aprendido vivendo muito: quem avança no jogo não é quem adivinha o futuro. É quem percebe que ele mudou e está sempre mudando. Observar o embaralhar das cartas não é ingenuidade otimista. É estratégia. Durante décadas, parecia natural que certas mesas fossem ocupadas pelas mesmas pessoas, que determinadas vozes monopolizassem o debate e que algumas histórias jamais fossem contadas. Hoje, ainda há enormes desigualdades. Mas há também rachaduras. E rachaduras têm um talento curioso: deixam a luz entrar. Nem toda mudança será boa. Nem toda novidade merece aplauso. Nem toda carta nova melhora o jogo. Mas viver como se o baralho permanecesse eternamente igual talvez seja uma das maiores ilusões do nosso tempo. Minha avó nunca estudou algoritmo. Nunca falou sobre economia da atenção ou análise sistêmica. Ela entende uma coisa fundamental sobre a existência: permanência não é rigidez. No fundo, acho que sua teoria nos ensina a não esperar pela carta perfeita. Porque ela talvez nunca venha. O segredo é aprender a jogar com inteligência, curiosidade e alguma dose de humor com as cartas que chegam às nossas mãos, enquanto mantemos os olhos atentos nas mãos visíveis e invisíveis que continuam embaralhando o baralho, para além da nossa própria vontade ou controle.

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