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'Alexa, conte uma piada': como as conversas com a IA influenciam o desenvolvimento de uma criança

3d agopt
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As crianças são naturalmente curiosas e, ao longo do dia, fazem perguntas de todos os tipos: por que os peixes não têm cabelo? Por que as flores murcham tão rápido? A necessidade de compreender o mundo — e de desenvolver a linguagem e as próprias ideias — faz delas conversadoras incansáveis. Onda de calor: adolescente quase perde a perna após mergulho em lago causar infecção por bactéria 'devoradora de carne' Caneta emagrecedora: laboratório nacional reduz o preço do medicamento nas farmácias Se antes essas perguntas eram direcionadas principalmente aos pais ou professores, hoje, em muitas casas, até as crianças pequenas recorrem a assistentes digitais como Siri ou Alexa. Esses sistemas de inteligência artificial estão cada vez mais presentes no cotidiano infantil: elas pedem para tocar músicas, ajudar nas tarefas escolares, responder dúvidas ou simplesmente conversar. Esse tipo de interação já deixou de ser novidade. Mas é importante perguntar o que acontece quando ela se torna completamente rotineira. Isso muda a forma como as crianças aprendem a se comunicar? Altera as palavras que elas usam? E pode representar um risco para o desenvolvimento de suas habilidades cognitivas? Como as crianças aprendem a linguagem Aprender a falar nunca significou apenas aprender palavras. As crianças adquirem a linguagem por meio das relações humanas e da construção de vínculos afetivos com outras pessoas. É assim que aprendem a esperar a sua vez de falar, interpretar o silêncio e o contexto, além de perceber quando alguém está cansado, irritado ou distraído. Também descobrem que uma conversa não precisa ser perfeita: sempre haverá interrupções, mal-entendidos e explicações improvisadas. A inteligência artificial, porém, não pensa como um ser humano. Basta lembrar das interações com ferramentas como ChatGPT ou Gemini. Raramente perdemos a paciência ao conversar com esses assistentes virtuais, em parte porque essas conversas seguem uma lógica muito diferente da comunicação entre pessoas. Esses sistemas foram desenvolvidos para responder rapidamente e demonstrar uma paciência praticamente infinita, o que muda a experiência da comunicação. IA e a educação para a gentileza Em muitas famílias, um comportamento curioso vem se tornando cada vez mais comum: algumas crianças — e até adultos — adaptam a maneira de falar para que os assistentes virtuais entendam melhor seus pedidos. Em vez de frases mais naturais, usam comandos simples e diretos, como: "coloque desenhos", "abra o YouTube" ou "conte uma piada". Esse tipo de fala, conhecido como linguagem instrumental, tem como objetivo obter um resultado imediato. Essa mudança não significa necessariamente que as crianças estejam ficando mais mal-educadas ou menos empáticas, mas pode influenciar suas expectativas sobre as conversas em geral. As interações humanas costumam ser lentas, ambíguas e exigem paciência, atenção e negociação. Já os chatbots são programados para responder de forma rápida, fluida e até transmitir uma sensação de empatia ao usuário. Isso leva a uma questão aparentemente simples, mas bastante reveladora: devemos ensinar as crianças a dizer "por favor" e "obrigado" para a Alexa? Mais do que discutir se devemos ser educados com máquinas, esse debate faz refletir sobre os hábitos de comunicação que as crianças desenvolvem ao interagir diariamente com uma tecnologia que sempre obedece aos seus comandos. A questão mais ampla para famílias e educadores é: que ideia de "conversar" as crianças irão construir nesse contexto? As oportunidades da inteligência artificial Ao mesmo tempo, não podemos ignorar os benefícios que essas ferramentas oferecem. Muitas crianças se sentem mais à vontade para fazer perguntas quando não têm medo de serem julgadas. Um chatbot pode repetir uma explicação quantas vezes forem necessárias, adaptar o nível de dificuldade ou ajudar no aprendizado de novos idiomas e conceitos. Essas ferramentas oferecem um ambiente seguro para experimentar, errar e aprender, sem a pressão social que normalmente acompanha as conversas entre pessoas. E isso não vale apenas para as crianças. Muitos adultos já recorrem à inteligência artificial para fazer perguntas do dia a dia — desde "Alexa, como recupero minha senha?" até dúvidas mais constrangedoras que prefeririam não fazer em voz alta. Responder não significa compreender Os sistemas atuais de inteligência artificial produzem respostas extremamente convincentes, mas não entendem o mundo da mesma forma que um ser humano. Eles não possuem experiências, emoções nem intenções, ainda que se expressem como se tivessem. Assim como acontece com muitos adultos, crianças pequenas tendem a atribuir características humanas aos objetos com os quais interagem. Se algo é capaz de conversar, é fácil imaginar que também compreenda o que está sendo dito ou possua conhecimento próprio. No entanto, grande parte da comunicação humana acontece de maneira implícita. Um adulto consegue perceber quando a pergunta de uma criança nasce da curiosidade, do medo ou simplesmente da necessidade de atenção. Essa dimensão pragmática da linguagem — formada por gestos, tom de voz, olhares e emoções — é fundamental para o desenvolvimento infantil. E é muito difícil reproduzi-la em uma máquina, que pode oferecer respostas, mas não captar essas nuances. Humanos não são máquinas Quando as crianças crescem cercadas por um tipo específico de interação linguística — baseado em respostas rápidas e na satisfação imediata de qualquer pedido — isso acaba moldando seus hábitos, expectativas e formas de se relacionar. Como consequência, elas podem passar a esperar respostas claras, rápidas e sem esforço, como se toda conversa devesse ser resolvida instantaneamente. Por isso, os adultos têm um papel essencial. São eles que mediam o uso dessas ferramentas em casa e na escola, compreendem suas limitações e conseguem integrar essas experiências ao processo de aprendizagem. Uma criança pedir para a Alexa responder uma dúvida ou contar uma piada, por si só, não prejudica seu desenvolvimento linguístico. O importante é orientar essas interações para que ela compreenda que está falando com uma máquina que responde a comandos, e não com uma pessoa. Também é necessário mostrar às crianças o que nos diferencia das máquinas, como devemos nos relacionar com elas e em quais situações seu uso faz sentido. Acompanhar essas interações, comentá-las e ajudá-las a entender os limites da inteligência artificial faz parte desse processo. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta útil de apoio, mas jamais deve substituir as conversas entre pessoas. Mesmo com os rápidos avanços da tecnologia, a interação humana continua sendo o elemento central da forma como aprendemos, nos comunicamos e existimos no mundo. * Clara Macarena Ponce Romero é professora da área de Didática da Língua e da Literatura da Universidade de Santiago de Compostela. * Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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